Tomo da Traça: Elantris, de Brandon Sanderson

Parafraseando a espetacular introdução do livro, Elantris era a cidade dos deuses. De uma beleza inenarrável, seus habitantes eram ainda mais incríveis. Escolhidos de forma aparentemente aleatória e transformados por uma força misteriosa, o Shaod, essas pessoas se tornavam muito mais do que meros humanos. Soldados, nobres, camponeses ou mendigos, todos aqueles escolhidos pelo Shaod abandonavam tudo o que eram e iam para Elantris, destinados a governar com glória e sabedoria, comandar poderosas forças mágicas e serem adorados por toda a eternidade como seres divinos.

A eternidade terminou dez anos atrás.

Esse romance foi a primeira publicação oficial do autor Brandon Sanderson, também conhecido como o sucessor de Robert Jordan como escritor da série Wheel of Time. Elantris é uma história de fantasia que traz conceitos inovadores para o gênero. Os três personagens principais figuram personalidades e motivações extremamente bem delineadas, embora algumas delas, como o príncipe Raoden e a princesa Sarene acabem por se tornar clichés do próprio Sanderson em seus livros posteriores. A trama, focada quase do início ao fim em manipulações políticas e chefes de estado, pode ser uma mudança brusca para aqueles vindos da fantasia tradicional, tão acostumada a retratar grupos de aventureiros andando por masmorras e áreas selvagens, enfrentando orcs e outros monstros. Outra ruptura de Sanderson com o gênero de fantasia tradicional é o fato de toda a trama do livro se passar apenas na cidade de Elantris e em sua vizinha, Kae.

Depois de um cataclismo de origens desconhecidas há dez anos atrás, os elantrianos perderam todos os seus poderes e se tornaram quase que mortos-vivos, sofrendo de uma fome que nunca cessa. A cidade de Elantris, antes o bastião da civilização, agora passa a ser um gueto imundo e visto com desconforto por todas as pessoas de Arelon, onde os elantrianos não mais vão para governar, mas serem isolados do resto do mundo.

No entanto, o Shaod não parou de transformar as pessoas. O que antes era uma bênção suprema passou a ser uma maldição horrível que transforma as pessoas em trastes humanos, incapazes de se curarem até mesmo da mais leve contusão e destinados a sofrer as dores de seus ferimentos para sempre como se tivessem acabados de serem contraídos.

O livro se inicia na cidade de Kae, atual capital do reino de Arelon depois da queda de Elantris e seus habitantes, com o príncipe Raoden acordando transformado pelo Shaod. Mais tarde naquele mesmo dia, a princesa Sarene de Teod, destinada a se casar com Raoden, chega à cidade e recebe a notícia da “morte” de seu quase-futuro-marido, mas no entanto sem ser avisada de seu real destino. Em outro momento, Hrathen, alto-sacerdote da religião Shu-Dereth e general do estado teocrático de Fjorden, chega com uma missão: converter o reino de Arelon à sua fé antes do prazo de 3 meses, quando seu rei-sacerdote irá mandar um exército para conquistar o reino e exterminar os hereges da face do continente.

Esses três personagens serão aqueles pelos quais nós iremos ver a trama. Raoden, preso em Elantris, tentando manter-se são, descobrir uma cura para sua condição e a causa da queda da cidade dos deuses; Sarene, tentando desvendar o segredo que encobre a suposta morte de seu marido e, posteriormente, enfrentar politicamente o alto-sacerdote de Fjorden; E Hrathen, um gênio estratégico, militar e político, nosso antagonista até os capítulos finais do livro.

Todos esses personagens possuem motivações e personalidades críveis e multifacetadas. Hrathen, por exemplo, apesar de ser um servo fiel de sua fé e reino, se culpa pelas mortes que causou em suas conquistas e vem a Arelon não apenas para convertê-los, mas para salvá-los e impedir que as espadas de Fjorden derrame sangue inocente. Hrathen é, talvez, um anti-vilão na história. Um antagonista sim, mas nem de longe uma pessoa má. Sua lógica fria e metódica, bem como o espírito guerreiro, o faz reconhecer em Sarene uma adversária não só digna do “combate” político que travam, mas de seu verdadeiro respeito e admiração.

Sarene por sua vez é a primeira de uma lista de personagens femininas fortes e capazes que figuram nos livros de Sanderson. Ao contrário do que o título de princesa pode indicar, ela é na verdade uma manipuladora política extremamente capaz e também uma esgrimista formidável, embora as cenas de ação no livro tenham se limitado à parte final da história. Raoden, seu marido e o personagem final da trindade de personagens principais de Elantris, demonstra ser um líder capaz, mesmo dentro das muralhas da amaldiçoada cidade, e se torna também o veículo que irá nos levar às descobertas mais profundas com relação à toda trama referente ao Shaod, a queda de Elantris e os problemas com o sistema de magia conhecido como AonDor.

O cenário é riquíssimo. Sanderson herda de Tolkien uma fascinação por elaborar um mundo vivo, com o sistema de magia AonDor profundamente explorado no livro, várias etnias, línguas e religiões figurando em suas páginas, mas sem a exacerbação do Velho Mestre em detalhes desnecessários. E, apesar do livro se focar muito mais em questões políticas, em nenhum momento o romance perde o fôlego ou o ritmo, alternando entre os pontos de vista de cada personagem à cada capítulo. E quando os personagens finalmente deixam as palavras para pegar em espadas… Bem, digamos que é um dos melhores momentos dessa história.

Sendo um livro relativamente curto e não muito complicado, eu considero Elantris uma ótima porta de entrada para aqueles que querem experimentar uma história de fantasia diferenciada, menos focada no mundo e mais nos personagens. Ótima trama, personagens melhores ainda e um plano de fundo que realmente dá um clima diferente e “tempera” a leitura. Recomendo fortemente.

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