Tomo da Traça: As Crônicas de Gelo e Fogo X As Crônicas do Matador do Rei

Hoje o Tomo será diferente do usual. Falarei não sobre um livro ou uma série, mas compararei duas das séries de fantasia: As Crônicas de Gelo e Fogo* e As Crônicas do Matador do Rei*. Os primeiros livros de cada série, A Guerra dos Tronos de George R. R. Martin e O Nome do Vento de Patrick Rothfuss já apareceram aqui no tomo. O primeiro autor é um veterano da fantasia, renomado, trabalhou em Hollywood, possui vários outros livros, um sistema de RPG próprio, um Trading Card Game, e recentemente atingiu a Apoteose com seus livros ganhando as telas em uma superprodução da HBO: A Game of Thrones. O segundo, atualmente meu autor favorito, não tem nem de longe um gabarito tão grande, mas os dois primeiros livros de sua primeira série receberam uma avalanche de críticas positivas, algumas até considerando seu segundo livro o melhor livro de fantasia já escrito, e todas de pessoas importantíssimas dentro do mundo da literatura fantástica (que, infelizmente, é minúsculo no Brasil).

As duas séries não são livros de fantasia comuns, com bolas de fogo, elfos, anões e orcs, e os heróis lutando para salvar o mundo. George e Pat escrevem seus livros de outra forma, focando em outras coisas que não a luta entre o bem e o mal. Não é que a magia não exista, ela existe, e uma das semelhanças entre as duas séries está nela. Em seus mundos a magia atualmente vive no patamar lendário, aparecendo somente em mitos e histórias de tempos muito passados, contudo ela está voltando, e isso fica bem claro no início de cada livro. Em cada prólogo de seus livros George mostra um pouco mais como a magia está voltando a Westeros. Por sua vez, a forma como Pat escreve sua obra, bem peculiar pro gênero – onde o personagem principal, Kvothe, conta sua própria história, nos levando pelos Quatro Cantos (mundo onde se passa a história) -, faz com que o leitor já saiba de algumas coisas que acontecerão no livro, embora sem saber como.

O que me parece um recurso muito interessante para manter o leitor virando as páginas, afinal você fica curioso pra saber como aquilo aconteceu. A escrita de Pat realmente é incomum no mundo da fantasia, desde o próprio Tolkien, pois praticamente toda a história se desenrola a partir do ponto de vista somente de um personagem, o que não deixa a história pobre, pois os outros personagens não deixam de serem muito bem feitos. Porém Pat não pode usar o recurso da leitura digressiva, que George largamente usa, e que é também muito usado por incontáveis outros autores, não só de fantasia.

A série de George não tem personagem principal, o que deixou muitas pessoas estupefatas com alguns acontecimentos do primeiro livro e a forma como a história se desenvolve. Como cada personagem tem um ponto de vista, e como a história é narrada a partir da visão de dezenas de personagens únicos, cada leitor terá seu favorito, com quem ele mais se identifica.  Uma experiência única é quando aconteceu de um mesmo acontecimento ser visto a partir dos olhos de dois personagens, mostrando como a realidade concreta pode ser vista de mais de uma forma, de acordo com os olhos que a enxergam, e assim fazendo com que pensemos os atos dos personagens por mais de um ângulo. Contudo, as atitudes de alguns personagens que dentro da nossa moral são condenáveis (às vezes dentro de qualquer moral, ouso dizer) ajudam a fazer com que os mais odiados sejam geralmente os mesmos, embora nem sempre, e com que uns que eram odiados antes de ter um ponto de vista na história (capítulos com seu nome), deixassem de ser, ou passassem a ser menos, o que pra mim é genial.

Sou muito ruim pra falar de mundos, pois pra mim não são o foco do storytelling e acabo não prestando muita atenção neles, eles estão ali para dar apoio (e por isso são importantes), e Westeros e os Quatro Cantos não deixam a desejar. O mundo de Martin é relativamente grande e não se limita aos sete reinos de Westeros, também conhecido como a terra do sol poente, no leste. Um mundo realmente magnífico e complexo, com culturas baseadas em várias civilizações da história, não somente europeias (como são os sete reinos), nos mostrando como o mundo é múltiplo e complexo, como nós não somos os únicos vivendo nele, e diria que até tentando nos ensinar a conviver com o outro, aceitar e se possível entender o diferente, afinal esse é o desafio de muitos dos personagens. Pat definitivamente não fica atrás nesse quesito, só por ter tido a incrível e inesquecível experiência de ler sobre os Adem, os livros já valeram a pena. No segundo livro Pat também nos leva à uma corte, uma muito bem feita por sinal e com suas peculiaridades, onde nós podemos ver um pouco do jogo dos tronos nos Quatro Cantos, afinal a maior parte da história de Kvothe é a de uma pessoa simples, e acho que talvez seja por isso que eu prefiro ela. Só Pat pra fazer com que a história de um menino de rua seja boa, dê vontade de ser lida. E nisso dá pra fazer uma comparação direta, pois no quarto livro de George aparece um ponto de vista de uma menina chamada Cat of the canals que não chega a ter uma vida de mendicante, mas quase, e que eu não achei nem de perto tão interessante quanto a vida do menino de rua de Pat.

Não posso deixar de admitir que considero os livros de George Martin melhores, principalmente o último, A Dance With Dragons, que é de longe o melhor que já li, melhor que os quatro primeiros da saga juntos (se bem que o quarto nem conta, porque, comparada ao resto da série, é bem fraco). Porém também não posso deixar de notar que preferi a leitura dos livros de Pat, e a forma como ele escreve e desenvolve sua narrativa, e a história de Kvothe, um personagem que pra mim só tem como rival Tyrion (que é de longe o melhor personagem de George Martin nas crônicas).

Por fim, reitero que as duas séries valem muito a pena, pra não usar o jargão da “leitura obrigatória” pra quem gosta do gênero. Quando comecei a escrever esse post, acreditem se quiserem, meses atrás, a série de TV da HBO ainda não tinha sido lançada, e os livros de George ainda não eram pop aqui no Brasil, hoje em dia até quem não gosta de fantasia os está lendo. Não são livros, tanto uma série quanto outra, que qualquer um entenda, por isso não acredito que virem moda, porque não foram escritos para público de pouco idade mental, mas mesmo assim eles (e aqui no Brasil muito mais A Guerra dos Tronos) conseguem penetrar em camadas da sociedade que só conheciam O Senhor dos Anéis por fantasia, e também por isso merecem uma conferida!

*A Song of Ice and Fire, que até a data do post possui cinco livros, dos sete previstos, lançados nos E.U.A.: A Game of Thrones, A Clash of Kings, A Storm of Swords, A Fiest for Crows e A Dance With Dragons. No Brasil somente os quatro primeiros foram lançados, traduzidos como A Guerra dos Tronos, A Fúria dos Reis, A Tormenta de Espadas e O Festim dos Corvos pela editora Leya.

*The King’s Killer Chronicle, que conta com The Name of The Wind e The Wise Man’s Fear, e ainda sem previsão para o lançamento do último livro da trilogia. No Brasil somente foi lançado primeiro, O Nome do Vento, pela Sextante, com o segundo livro lançado recentemente.

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22 Comentários para “Tomo da Traça: As Crônicas de Gelo e Fogo X As Crônicas do Matador do Rei”

  1. ouvinte novo disse:

    Fico feliz que o gaveteiro esta voltando aos poucos.Força galera,vcs estao quase la.Abraço.

  2. Tio Sam disse:

    Que bom mesmo que estão voltando. Os primeiros casts que ouvi foram do Gaveteiro e daí que passei a gostar mesmo de casts

  3. Garcia Junior disse:

    Muito boa a análise das séries literárias no artigo. Estou terminando o 4º livro de “As Crônicas de Gelo e Fogo” e estou o achando não tão envolvente quanto os anteriores, mas ainda assim uma leitura que não pode deixar de ser feita. Fiquei curioso sobre essa outra série literária e acho que encomendarei seus livros. Parabéns pelo site e podcast.

  4. jp. disse:

    eu prefiro : o nome do vento.

  5. penny lane disse:

    Eu sigo as duas séries por que adoro ler. Confesso que fico encantada com a doçura dos personagens do Pat. O Kvothe mesmo sendo homem não se deixa abalar por demonstrar suas fraquezas e isso me encanta nele. Eu acredito que o Martin não manteria a expectativa de milhoes de leitores no mundo se estivesse escrevendo As Crônicas de Gelo e Fogo sob o ponto de vista de um único personagem, por mais que ele fosse bem construido, então o meu voto é para As Crônicas do Matador do Rei. Devo contudo fazer uma ressalva, em matéria de romance o Pat deixa a desejar, na minha humilde opinião. Kvoth e Dena não dá liga, por mais que eu me esforce para vê-los como um casal.

  6. Matheus disse:

    Vocês sabem quando vão lançar o volume 3 do matador do rei ?obrigado

  7. Talvez eu seja uma das únicas pessoas do mundo que não conseguiu gostar das Crônicas do Gelo e do Fogo. Na verdade, parei de ler no primeiro livro da série. É possível que eu tenha esperado algo muito diferente do que o que me foi apresentado e por isso o tenha lido com olhos despreparados.
    Fato é que tanto “O Nome do Vento”, quanto “O Temor do Sábio” são livros absurdamente bem construídos e que geram expectativa do início ao fim. Uma narrativa em primeira pessoa com 960 páginas, como é o Temor do Sábio poderia cansar lá pelas tantas, porém, não é o que acontece. Os livros exercem um poder arrebatador sobre quem está lendo e por isso, na minha modesta opinião o Patrick leva vantagem.
    Deixo claro que não é que o Martin seja ruim, simplesmente não coube no meu gosto.

    • leonardo disse:

      Cara de começo eu também não gostei de ler as Cronicas de Gelo e Fogo, principalmente pelo fato de estar lendo “as cronicas saxônicas” e ter um certo preconceito com livros que falam de magia. Mas na medida que avancei na leitura, não consigo mais parar e já lamento o fato de saber que um dia vai acabar. Com certeza é um dos melhores livros que já li.

  8. Juan disse:

    Adoro muito as cronicas de fogo e gelo…para mim o melhor livro de todos que ja li (e nao foi poucos)…ja estou no terceiro livro….recomendo nao consigo para de ler..mas eu nunca tinha ouvido falar de a cronica do matador do rei…mas pelo jeito deve ser bom….quando terminar a saga de Martin certamente vai ser minha proxima leitura…

  9. Lucas disse:

    as cronicas do gelo e do fogo é bom, mas acho a cronica do matador do rei bem melhor

  10. kes disse:

    na minha humilde opiniao a cronica do matador do rei é melhor.pq eu geralmente leio um livro muito rapido o nome do vento eu li em 2 dias agora a o outro livro eu li em + ou – uma semana. eu num conhecia esse site + eu gostei 🙂

  11. Guilherme disse:

    Bah a maioria que leu os 2 vai escolher as crônicas do matador do rei.
    Gelo e fogo é fantástica,mas O nome do vento é coisa de outro mundo,conseguiu superar a sensação que tive lendo harry potter quando criança.

    • Gustavo Bessoni disse:

      Nossa cara, você falou exatamente o que eu penso. Superou a sensação de Harry Potter.
      O Nome do Vento e O Temor do Sábio são livros fantásticos, do tipo que você não consegue parar de ler.
      Acredito que qualquer pessoa que ler esses livros, jamais será a mesma pessoa que era antes.
      É de fato uma história que gera expectativa do início ao fim, eu li o primeiro em dois dias e o segundo em três. Desde então eu tenho relido várias vezes.
      Por mais que eu queira que o Pat tome o tempo necessário pra fazer o próximo, eu estou quase morrendo na espera de As Portas de Pedra.
      Por mais que eu também goste das Cronicas de Gelo e Fogo, meu voto definitivamente, sem dúvida alguma, vai pro Matador do Rei.

  12. camila disse:

    as cronicas de gelo e fogo… fantastica…

  13. André disse:

    Eu li os dois livros da cronica do matador do rei, to esperando sair o terceiro. até agora, foram os livros que mais dediquei tempo para ler. são excelentes e quando acabam voce fica meio vazio por nao poder continuar lendo. tive que ler o nome do vento duas vezes. eu gostaria de começar a ler as cornicas do gelo e fogo, mas são livros demais e ainda tenho planejado ler outros livros. nao sei qual dos dois é melhor, mas a cronica do matador do rei é boa demais para nao ler.

  14. Amanda disse:

    Considero “O Nome do Vento”, e “O Temor do Sábio” os melhores livros de fantasia que já li, meu voto com certeza vai pra eles..

  15. Murilo Calvin disse:

    Oi caros amigos. Então na minha humilde opinião, para mim são os melhores livros de fantasias que eu li..Ambos os dois são minha paixão e depois de ler ambos não consigo passa um dia sem ler romance, fantasia, livros e mais livros..por causa desses grandes escritores….Os livros de Patrick As Crônicas do Matador do Rei putz e uma viajem conseguiu me desligar do mundo e viajar e muito bom não saberia o q escrever sobre eles..mas só o Martin coonseguiu faze eu chorar de verdade..no casamento vermehlo quando terminei de ler eu sai na ruaaa e griteiii FDPPPPPPP é estava chovendo!!!!Meu peronagem favorito e a arya se ele mata ela…cara eu pego um aviao pro mexico e vo na casa dele manooo !!!!!!!!!Bom eu amo as historias do Kvothe mai para mim o melhor e as Cronicas de Gelo e Fogo.

  16. Gabriel disse:

    Kvothe quebra a vala!

  17. Rayssa Lima disse:

    O NOME DO VENTOOOOOOOOOOOOOOOOOOO. PERFEIÇAO !!!!!

  18. J. F disse:

    Droga, comparar as melhores sagas de fantasia dos últimos anos.. Gosto muito do George Martin mas, os livros do Pat exercem mais conexão e empatia com o leitor. Por hoje, fico com O Nome do Vento.

  19. Cecilia disse:

    Só uma observação, não pareceu claro no seu texto… a “gata dos canais” não é uma menina de rua qualquer. Todos que lêem sabem que se trata da Arya. Por isso é tremendamente interessante, se você colocar em perspectiva toda a trajetória dela até ali e seu treinamento como faceless man. Quanto ao Tyrion ser o melhor, blablabla, há controvérsias. Eu pessoalmente não gosto dele apesar de admirar a tremenda complexidade que o Martin colocou nele. Essa é uma visão pessoal sua, e a minha é bem diferente.
    Os livros do Martin são melhores, mas bem mais cansativos de ler (a quantidade de descrições e divagações, Tolkien também fazia isso) do que os livros do Pat.

  20. Giovani Girardi disse:

    “O Nome do Vento” e “O temor do sabio”, dois livros incriveis, sem duvida os melhores que ja li, estou tão entregue a essa trilogia que quando vou ler outro livro fico pensando nos misterios que rondam Kvothe e os Quatro cantos, já li cada um dos dois livros 4 vezes, as ultimas duas apenas para tentar desvendar misterios.

    Quem quiser discutir ipoteses sobre o livro ou perguntar alguma coisa sobre o mesmo… só chamar.

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