Tomo da Traça: Democracia Antiga e Moderna

Hoje temos no Tomo um livro bem diferente dos que apareceram por aqui até então. Democracia Antiga e Moderna é considerado um livro acadêmico de história, porém fala sobre algo muitíssimo importante e presente em nossas vidas, o que é a democracia? Pergunta aparentemente idiota, facilmente respondida por qualquer ocidental. Porém, se fizéssemos uma pesquisa, constataríamos que 90% (um chute científico, provavelmente é até mais) dos ocidentais errariam a resposta. Bom, em verdade é relativo, pois hoje existem vários significados para democracia, a maioria das pessoas responderia “governo do povo” ou “poder do povo”, o que estaria meio certo, mas que receberia um errado de um professor mais rígido. E por quê? A resposta simples é que o significado de democracia hoje, do meu ponto de vista, é diametralmente oposto ao que era para os atenienses. Mas, Lucas, quando você pergunta o que significa democracia, obviamente está perguntando o que ela significa hoje. E estou! Exatamente por isso a resposta “governo do povo” ou “poder do povo” está errada, pois isso era em Atenas, não hoje.

Obviamente as palavras mudam de sentido, porém nunca a alteração semântica é acidental, ou socialmente neutra. O autor tenta mostrar como a palavra democracia hoje é usada de forma ideológica, com ideologia aqui tendo o sentido marxista clássico, de algo que mascara a realidade. Um exemplo para facilitar o entendimento, nós, maiores de 18 anos, votamos (somos obrigados a) no Brasil, em representantes que, em teoria, legislam e executam ao nosso favor. Portanto, somos um país democrático, mais ou menos democrático, pelo menos. Não na opinião dos atenienses, para eles nós somos aristocráticos, porque nós votamos em quem “achamos” serem os melhores (aristói, em grego) para nos governar. Espera aí, democracia não era governo do povo? O que Finley quer dizer é que nossas classes dominantes, elites, como ele prefere chamar, usam a palavra democracia como forma de manipulação, para que os governados pensem que mandam, que tomam decisões importantes.

Adiantando uma outra coisa do livro, que não consigo deixar de falar, é que o próprio ato de eleger alguém era considerado antidemocrático na antiguidade. Dos 500 e poucos cargos públicos de Atenas, 500 eram decididos por sorteio, os outros poucos eram os cargos de generais e diplomatas, completamente submissos à vontade da Assembleia, que não eram cargos fixos, eram sim eleitos pelo voto. Finley aborda toda a questão de líderes e liderados, dos demagogos, rebatendo as críticas feitas à democracia, e principalmente desmente a afirmação feita, por má-fé ou desconhecimento, por nossas elites dominantes de que a democracia radical ou direta, como eles chamam, é impraticável.

O livro de Moses Israel Finley, um dos mais renomados historiadores da antiguidade de todos os tempos, mostra-nos brilhantemente as diferenças entre a democracia antiga e a moderna. O livro, apesar de realmente ser acadêmico, não é destinado somente a esse público. Ele foi escrito a partir de conferências que o autor participou sobre o tema, e com provável intenção de poder ser lido por o máximo de pessoas possível (o que não é regra nas obras do autor), pois usa uma linguagem bem simples, apesar de formal.

Desde quando Finley escreveu seu melhor livro, esse, em 1973, a democracia no ocidente evoluiu consideravelmente, é passível de dizer que alguns estados dos E.U.A e alguns países da Europa (como a Suíça ou Suécia, nunca sei), possuem democracias diretas, ou bem mais participativas do que eram. No Brasil, então, tivemos avanço, estávamos sob uma ditadura, agora votamos de 4 em 4 anos em nossos representantes (exceto senadores, que são de 8 em 8).

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3 Comentários para “Tomo da Traça: Democracia Antiga e Moderna”

  1. Anderson Borge disse:

    Um bom exemplo de democracia moderna é o caso do Iraque e como o EUA atravez da prática de torturas, execusões, bombardeios levaram um pouco da nossa democracia para o seio da sociedade iraquiana.

  2. Goldfield disse:

    O Finley é mesmo muito bom, li vários textos dele na faculdade. Esse livro em particular eu não conhecia, valeu pela dica.

    De fato, em Atenas tínhamos democracia direta, e hoje temos democracia representativa – o povo elegendo representantes para si. No entanto, temos de lembrar que em Atenas exerciam a democracia apenas aqueles considerados “cidadãos”, ou seja: apenas homens, livres e que não fossem estrangeiros – o que estava longe de ser a maior parte da população ateniense. Há de se considerar que o fato de o conceito de cidadania ser então tão restrito ser algo ocasionado pela cultura e mentalidade da época, mas desse modo vejo que ambos os sistemas têm prós e contras: o de Atenas possuía democracia efetivamente direta, mas esses cidadãos não poderiam ser enxergados como representantes de quem era deixado de fora do sistema, como as mulheres e escravos. Ou seja, apesar de visarem o bem comum de Atenas, eles em teoria não teriam obrigação nenhuma de representar os interesses desses excluídos.

    No nosso caso, escolhemos representantes – mas, ao menos na teoria (ainda que na prática isso infelizmente não ocorra bem assim), eles são eleitos para representarem a totalidade da população.

    Há autores que criticam a democracia por ela muitas vezes se converter em “ditadura da maioria” – ainda que haja voto, um grupo majoritário da população se mobiliza por determinado motivo e faz valer sua vontade. Cito como exemplo até as últimas eleições, em que ambos os candidatos a presidente (Dilma e Serra) tiveram de se manifestar abertamente contra o aborto devido à pressão da opinião pública – manifestada pela maioria.

    Eu, particularmente, sou pessimista e descrente no sistema democrático. Ele é um dos melhores sistemas políticos já desenvolvidos pelo homem, tanto em sua forma direta quanto representativa, concordo. Porém possui muitas falhas, principalmente, ao meu ver, por ser um sistema de governo que favorece muito a corrupção e os desmandos administrativos, desde a Antigüidade. Está certo que um governo ditatorial também pode se mostrar incrivelmente corrupto, possuindo a vantagem de na maior parte das vezes conseguir ocultar seus desmandos, mas muitas vezes a corrupção acaba se tornando um próprio mecanismo de funcionamento do sistema. No Brasil, por exemplo, o “mansalão” surgiu para que deputados aceitassem votar em determinadas leis. Ou faz-se o velho “voto de cabresto”, dando algo à população em troca do voto em determinado partido ou candidato – o direito de voltar se tornando forma de ganho, tanto para o político quanto para o eleitor.

    Acho que concordo com Monstesquieu: democracia só funcionaria perfeitamente num Estado pequeno o bastante para que todas as pessoas pudessem se reunir na praça para deliberar.

  3. Anderson Borges disse:

    Gostei da resposta gold =D

    na democracia representativa (nosso caso)acaba que vira uma aristocacia (Governo dos melhores)só observar a formação de partidos politicos e o pior é que esse sitema é sempre corrompido e vira oligarquia, além de seu voto ser praticamente a única forma de expressão dos cidadãos para o governo. a constituição preve a criação de referendos, mas só vi um sobre o desarmamento e foi demasiadamente mal feito. e agora ainda falam em reforma politica. procure ver quem está por trás dessa. só rindo pra não chorar

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