Crítica: Tropa de Elite 2, de José Padilha

Capitão Nascimento, brazilian brucutu icon. Tropa de Elite, de 2007, foi o primeiro filme nacional a realmente estabelecer na cultura popular o conceito de um herói tupiniquim (se é que Nascimento pode ser considerado um personagem heróico). O líder do BOPE, interpretado magistralmente por Wagner Moura, fazia e acontecia com a bandidagem o que dava na telha, e por isso o filme foi algumas vezes rotulado como um libelo direitista, e até  mesmo fascista, erroneamente. Tropa de Elite 2 (Brasil/2010) dá um passo além, tirando o foco do protagonista do primeiro filme e abrindo muito mais o leque de implicações acerca do caos e violência urbanos do Rio de Janeiro; dando margem a reflexões mais embasadas e ligadas às causas intrínsecas da brutalidade brasileira. José Padilha, de fato, comanda um filme que se aproxima bastante da perfeição.


Dias atuais, a partir dos fatos acontecidos durante uma rebelião no presídio de Bangu 1, na qual o Batalhão de Operações Especiais promove um banho de sangue, o já Coronel do BOPE Roberto Nascimento (Wagner Moura) é alçado à condição de sub-secretário de segurança do Estado do Rio de Janeiro, por questões meramente políticas. Dessa vez, nosso brucutu enfrenta uma forte oposição ideológica por parte de um ativista dos direitos humanos, Fraga (Irandhir Santos), que assim como a maioria dos líderes estudantis, entra no mundo da política. É nessas condições, “dentro do sistema”, que Nascimento começa a entender a intrincada promiscuidade entre aqueles que são eleitos para nos representar e a criminalidade, fato tão presente no nosso dia-a-dia, mas tão pouco explorado pela mídia brasileira em geral.

O grande pivô da violência carioca do primeiro filme, o tráfico de drogas, é meio que deixado de lado em Tropa 2; agora é tratada a ascensão dos milicianos, geralmente grupos de policiais que ocupam as lacunas de poder nas comunidades e são tão ou mais truculentos que os traficantes. Interessante como a trama e os personagens do filme encontram semelhantes no cotidiano brasileiro, especialmente em época de eleições; penso até que seria saudável para o nosso processo democrático que Tropa de Elite 2 tivesse sido lançado antes do primeiro turno. Não que o filme fosse causar reviravoltas eleitorais, como já vi alguns críticos alardeando por aí, mas poderia instigar a reflexão, mesmo que superficial, em muita gente antes do sufrágio, dada a quantidade de pessoas que provavelmente irão aos cinemas para conferir. Apesar dos horizontes expandidos na questão das causas da bestialidade brasileira, o drama pessoal de Nascimento não é esquecido. O papel desempenhado na secretaria de segurança, em conjunto com a atuação de Fraga enquanto deputado, acaba por atingir o aspecto da vida do Coronel que mais lhe traz apego: sua família. Por falar em Fraga, é importante citar o cuidado com que foi criado e desenvolvido o personagem, fugindo dos clichês comuns com os quais geralmente são representados os líderes de esquerda. Padilha e Irandhir optam por afastar Fraga da “síndrome de presidente de DCE”, caminho que se revelou acertado.

Apesar de tratar de questões bem cariocas, o ator Irandhir Santos, em entrevistas de divulgação do longa, atentou para um aspecto que torna o filme mais amplo. Natural de Limoeiro, interior pernambucano, o ator disse que tudo o que é mostrado na tela poderia muito bem se encaixar no cotidiano do Recife. Eu vou um pouco mais além, Tropa 2 fala do que ocorre em São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Maceió, e toda e qualquer cidade brasileira onde marginais e bandidos são continuamente eleitos e reeleitos para cargos públicos, entra eleição – sai eleição. Este último pilar da democracia (2010) está aí para atestar isso. Claro, num país de miseráveis verdadeiros, e daqueles que também se passam por, é difícil livrar-se dos currais eleitorais, e o magnífico roteiro de José Padilha e Bráulio Mantovani não faz questão de esconder estas relações escusas, pincelando toda uma rede de corrupção, violência e mau caráter que desemboca nos absurdos dos aglomerados urbanos brasileiros. Ainda, penso que o que está sendo mostrado na tela pode ajudar um pouco o espectador/eleitor a lembrar do que realmente importa num debate político. É impressionante e ao mesmo tempo intolerável que num país atolado de problemas sociais até o pescoço a discussão entre os candidatos ao cargo executivo mais importante da nação esteja centrada em questões religiosas…

Dito isto, é de se esperar que esta continuação seja um pouco menos dinâmica, em termos de cenas de ação, do que o filme de 2007. Tropa de Elite seguia um caminho um pouco mais calcado na diversão, mas não apresentava muitas possibilidades para uma discussão mais aprofundada da realidade nacional. Tropa 2, mais cerebral, carrega um pouco menos na quantidade de sequências de ação; mas meu amigo, quando elas aparecem são de encher os olhos. É aquela velha história, quantidade não significa qualidade, e qualidade Tropa 2 tem de sobra. Como disse antes, o diretor José Padilha, junto com uma equipe técnica fenomenal e um trabalho de elenco exímio, entrega uma obra que por muito pouco não pode ser dita perfeita: ótima história, grandes atuações, edição de som fenomenal e fotografia de primeira. Vale lembrar que a direção de fotografia é de Lula Carvalho, filho do mago da fotografia brasileira Walter Carvalho. Peças do elenco que se destacam ainda incluem André Mattos, Milhem Cortaz (o tenente Fábio, com seus bordões habituais), Seu Jorge – numa participação especial -, e Sandro Rocha, como o líder miliciano Russo. Russo, por sinal, já entrou para o rol dos bandidos mais odiados do cinema brasileiro, mérito de seu intérprete.

Mais do que merecido é o sucesso que o filme vem amealhando. Segundo dados do site Omelete, Tropa de Elite 2 levou aos cinemas brasileiros em seu fim de semana de estréia em torno de 2.5 milhões de pessoas; para padrões nacionais, isso é um mar de gente. Quantos filmes, seja qual for a nacionalidade, conseguem combinar características díspares, como agradar público e críticos concomitantemente, ou amalgamar ação de qualidade com reflexões sobre problemas sociais sérios? Tropa 2 consegue tudo isso, e concorre facilmente para figurar na posição de melhor filme do ano no circuito comercial brasileiro. Parabéns a José Padilha e equipe, este é o cinema nacional que todos gostaríamos de sempre ver.

Notas (numa escala de 0 a 5):

Imagem: 5

Som: 5

Geral: 5

*Imagens: Site Oficial do Filme, Belém Com

**Trailer:

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6 Comentários para “Crítica: Tropa de Elite 2, de José Padilha”

  1. Manu Agra disse:

    Parabéns pela crítica Fábio, o filme realmente é ótimo e nos faz pensar bastante…

  2. Wallach disse:

    Fábio, suas críticas são admiráveis, to louco pra ver o filme 😀

  3. Fábio Nazaré disse:

    Wallach, obg pelos elogios. Merece mesmo uma ida ao cine

  4. Tarta disse:

    Como sempre uma obra de arte do cinema brasileiro. Com todas suas caracteristicas, um filme como sempre muito cru tratando de um contexto da nossa realidade.

  5. Roberto Pará disse:

    Valeu Fábio pela crítica, como sempre muito boa, também estou louco para assistir o filme.

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