Crítica: Menina Má.com, de David Slade

Menina Má.com (Hard Candy, EUA, 2005) não é um filme agradável. Seguindo na mão inversa de O Lenhador, filme recente com Kevin Bacon que abordava o inferno imposto pela consciência de um pedófilo arrependido porém não redimido, Menina Má.com versa uma história quase inverossímil: a virada de mesa da parte que normalmente é a vítima.

Depois de três semanas conversando numa sala de chat da Internet com uma garota de 14 anos chamada Hayley (Ellen Page, mais conhecida por seu papel como Kitty Pride, em X-Men 3), Jeff Kohlver (Patrick Wilson, de Angels in America e Watchmen), um fotógrafo de modelos, consegue marcar um encontro com seu objeto de desejo. Depois do encontro numa lanchonete, no qual Hayley parece uma pessoa bem mais madura do que uma menina de sua idade, os dois vão para a casa do fotógrafo. A partir daí a história subverte os rumos convencionais de um conto de abuso infantil, Hayley se revela uma garota sádica e que tem todo o controle do que está fazendo, o que vai fazer e do que Jeff pretende.
Claustrofóbico sem jogar os personagens em lugares apertados, o filme do diretor David Slade abusa dos enquadramentos fechados nos rostos da dupla de atores, artifício inteligente que maximiza os momentos de tensão. Entretanto, a opção por esta forma filmar poderia arruinar um bom filme se os atores escolhidos não fossem capazes de suportar o desafio. Patrick Wilson consegue fazer com acurácia a transição entre o fotógrafo famoso e confiante do início para o homem submetido ao controle de uma adolescente. Mas Ellen Page é quem rouba descaradamente a cena. A adolescente vingativa e manipuladora que Page traz à vida é um dos personagens mais interessantes e assustadores que apareceram recentemente no cinema. Hayley é interpretada com a segurança e a dissimulação necessárias por Page, e fica difícil pensar em outra atriz para o papel.
O roteiro de Brian Nelson joga constantemente com a tendência que todos têm de eleger o mocinho e o bandido em qualquer situação. Não se sabe ao certo quais segredos Jeff e Hayley escondem, não se conhece quem está certo ou quem conta a verdade até poucos instantes antes do final da projeção. Assim, é possível sentir compaixão por um ou outro em momentos alternados, quando na verdade não existem inocentes. No entanto, o resultado final é oferecer ao público uma forma de dar vazão à indignação causada por um dos piores crimes que um ser humano pode cometer, e satisfazer desejo de vingança conseqüente. Nelson deixa isso claro quando é apresentada uma cena de tortura que angustia de maneira bastante eficiente (uma experiência vicária das mais reais!), especialmente o espectador masculino.
Menina Má.com, apesar do péssimo título dado pela distribuidora brasileira, é um prato cheio para os cinéfilos. Ótimo suspense, bons atores, fotografia original e direção consistente.

Notas (numa escala de 0 a 5):

Imagem: 4

Som: 4

Geral: 4

*Imagens: The Movie Picture Database

**Trailer:

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12 Comentários para “Crítica: Menina Má.com, de David Slade”

  1. Alexandre disse:

    Muito bom!

  2. Júlia Veras disse:

    Há alguns meses, assisti ao o terço final desse filme e achei péssimo. Mas, curiosamente, esse foi um dos melhores textos que você já fez – muito bem argumentado. Tanto, que se um dia eu topar com o filme pela frente de novo, eu juro que dou outra chance.

    Agora, sinceramente, quem usa a palavra acurácia não pode reclamar de quem usa quadrante. 😉

    =**

  3. Flyfish disse:

    Acabei de assistir ao filme. A impressão que tive é que Menina Má.com (“tradução” horrível mesmo) é um Jogos Mortais quase sem sangue.

    Até achei interessante essa troca e papéis entre vítima e criminoso (de tal forma que a gente nem sabe quem é a verdadeira vítima), mas achei o filme bem cansativo. Acho que essa história poderia ser contada em um curta de uns 20 ou 30 min de maneira mais efetiva e menos desgastante para o público. Não sei se aguentaria assistir mais uma vez e passar por isso de novo.

    Mas uma coisa tenho que admitir, é uma história assustadora, ainda mais para as pessoas que vivem no mundo virtual. Logo logo isso vira uma lenda urbana moderna.

  4. Fábio disse:

    @Veras: HAha, obrigado pelos elogios! Ficarei impressionado qd tu usar “ângulo sólido” em algum texto hehe!

  5. paulo disse:

    Eu não gosto deste tipo de filme, cheio de reviravoltas, cheio de planos mirabolantes onde um personagem sabe tudo o que outros vão fazer, tudo o que acontece no filme faz parte dos planos do personagem. Parece que ele é um deus, que sabe tudo e pode tudo. Detesto assistir um filme assim. Prefiro um que os personagens são humanos, cheios de falhas, onde tudo dá errado. Além do mais como pode um homem apanhando de uma menina? Várias vezes ele escapa e é capturado de novo! Totalmente inverossimil.

  6. […] Crítica de Menina Má.com (Por Fábio) […]

  7. Andy disse:

    Esse filme é uma bosta. Um homem adulto ser tão molenga daquele jeito é quase um insulto.

  8. Gabriel disse:

    Bom filme. Não tem nada a ver comparar com o péssimo Jogos Mortais. É um suspense que prende a atenção até o final. As atuações e a direção são satisfatórias. Gostei, recomendo.

  9. Stella disse:

    Este filme é uma porcaria! A história não tem o menor nexo, dane-se a “inversão de papéis”, não acho que essa proposta faz do filme um bom filme. Completamente inverossímil um homem adulto apanhar tanto de uma menina bocó e tapada da cabeça. Não tem história. Cansativo. Show de cenas de tortura. Pra quem gosta de ver cenas de terror sem nexo, sem roteiro, sem nada mais, veja. Pra quem gosta de ver algo que preste, passe longe. Nota, em uma escala de 0 a 5: ZERO (bem redondo)!

  10. Miguel Carqueija disse:

    Discordo veementemente das críticas negativas. “Hard candy” para mim é um dos melhores filmes de todos os tempos, é puro cinema de arte como se vê nos detalhes técnicos (música, enquadramentos, cortes, ficha técnica, interpretações etc) mas o melhor mesmo é o conteúdo, um libelo contundente contra a monstruosidade da pedofilia. O fato é que a menina paladina Hayley Stark – numa interpretação absrudamente boa de Ellen Page – faz o ulgamento do pedófilo abusador e assassino, desmascara todas as suas mentiras e desculpas (nenhum pedófilo jamais fez nada, são uns santinhos) e o demole moralmente, ela é aquela personagem misteriosa que surge para restaurar a ordem e a justiça, tem mesmo algum parentesco com Mary Poppins. Hayley, sábia e justa o tempo todo, pode até ser um anjo enviado á Terra, a própria cançaõ dos créditos finais, Elephant woman, fala repetidamente em anjo, o mistério de hayley é recohecido pelo próprio fotógrafo abusador na sequencia final, quando derrotado, demolido, destruido, ele pergunta pateticamente “Quem diabos é você”? E ela responde majestosamente: “Eu sou todas as garotinhas que você espiou, apalpou, machucou, vioentou e matou”. E ela o deixa vivo, mas arrebentado (a corda não esticou, era muito comprida, ele não morreu enforcado) para ser descoberto pela ex-namorado, todas as provas contra ele expostas, a cadeia como destino inexorável (“vão fazer xoisas terríveis com você na cad eia”).Quanto a ele se soltar e ela captura-lo de novo, ela é superior a ele, sabe o que está fazendo.

  11. carol disse:

    Nossa eu achei muito interessante, Page com certeza rouba a cena, o filme causa desconforto em quem assiste por deixar uma sensação ambigua sobre o fotografo, pois temos raiva dele e sua “suposta” pedofilia, poque não foi mostrado provas claras sobre isso, mas pra bom entendedor, meia palavra basta, e ao mesmo tempo o terror psicologico é tão cruel e sedutor que sentimos pena do fotografo…eu achei interessante… adoro filme com personagens psicoticos.

  12. Miguel Carqueija disse:

    Carol, as provas da pedofilia de Jeff – que iam até a agressão, sequestro, estupro e assassinato das vítimas – são claras. Logo no início, na conversa via net, se percebe que o tipo é pedófilo – e por mais, ele vai se encontrar com uma garota de 14 anos (ele tinha 32) e a leva sozinha para casa, onde ele também está sozinho – o que é que ele podias querer? Hayley descobre fotos de pornografia infantil no arquivo secreto de Jeff, o esconderijo no chão que era um cofre. Escondido demais. E a foto da desaparecida e assassinada Dona Mauer. Jeff confessa suas taras do tempo de garoto e, a certa altura, tem um xilique e ataca um dos posters de ninfetas na parede, a facadas. No fim ainda admite que Dona Mauer foi assassinada, mas pelo outro – ou seja dois sujeitos sequestraram a menina, abusaram dela, mataram-na, sumiram com o corpo e ainda ficaram n um jogo de empurra, cada um acusando o outro. O que Hayley Stark fez não foi coisa de sádica, foi uma ação santa.

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