Crítica: Ilha do Medo, de Martin Scorsese

O retorno do diretor Martin Scorsese ao suspense simples e direto, com leves toques de terror, parecia estar centrado em Ilha do Medo (Shutter Island/EUA/2010), thriller mais uma vez protagonizado pelo ator-fetiche scorseseano Leonardo DiCaprio e baseado em um famoso romance de Dennis Lehane. Como muitos aguardavam, a potência narrativa vista na refilmagem de Cabo do Medo (1991) ressurge aqui, porém bastante diluída em um filme onde um norte não parece muito claro, mas que também deixa o espectador decifrar a trama precocemente.

Em seu quarto filme em parceria com Scorcese, DiCaprio interpreta o policial federal Teddy Daniels, que junto com Chuck Aule (Mark Ruffalo), também policial, chega ao asilo para criminosos com distúrbio mental de Boston durante o ano de 1954, situado em uma ilha bastante inóspita. O intuito dos oficiais é proceder com a investigação acerca do sumiço de uma das pacientes da instituição, cujo paradeiro e a forma com a qual o desaparecimento se dá são um mistério. Apesar de também estar na ilha por motivos pessoais, Daniels começa a ser atormentado por memórias passadas e pesadelos recorrentes, fato que inicia um processo destrutivo sobre sua sanidade e que incentiva um paralelo aprofundamento das investigações a respeito do que realmente ocorre na ilha.

Ilha do Medo parece transpirar certo cansaço por parte de seu realizador. Apesar de todo um esqueleto muito bem montado, com uma reconstituição competente da década de 50 atrelada a uma fotografia belíssima e recheada de tons cinzentos, construindo de maneira sutil a atmosfera carregada e nem um pouco amigável do presídio. No extremo oposto é possível citar a trilha sonora, que surge como um grande martelo sempre atentando para o fato de que estamos diante de um thriller, fugindo do hábil artifício de alicerçar de maneira despercebida o caminho que a platéia percorre para o ambiente de medo e mistério. Todavia, algo que Scorsese reluta em nunca deixar de fazer bem é o trabalho com os atores. DiCaprio, em mais uma boa performance, conta com um elenco de apoio excelente e estelar, onde figuram nomes como Max Von Sydow (de O Exorcista), Michelle Williams, Jackie Earle Haley, Elias Koteas, Emily Mortimer, Patricia Clarkson e Ben Kingsley, como o diretor da instituição sendo investigada.

Daí, o que inicialmente parece ser um suspense policial, e talvez até com algum resquício de sobrenatural, se torna um possível drama político cheio de teorias conspiratórias. O desvio da trajetória ocorre, porém, descambando para um epílogo comum, com ares de reviravolta no melhor estilo Shyamalan, e previsto por qualquer um com alguma bagagem cinematográfica. Claro, Scorsese mantém alguns patamares de distância do diretor de Corpo Fechado (2000), mas comete o mesmo erro que o indiano ao tentar surpreender e acabar enganando o cinéfilo. A linha que separa a boa sensação de surpresa do sentimento de enganação é bastante tênue, e qualquer descuido pode trazer o efeito de superposição dessas percepções.

Difícil pensar que Scorsese faria um filme ruim, e Ilha do Medo não chega a sê-lo. Mas, uma história de um escritor consagrado como Lehane poderia ter sido aproveitada de maneira mais cuidadosa. Vindo de um documentário musical (Shine a Ligth) e de um policial extremamente violento e tenso (Os Infiltrados), Scorsese parece apenas ter errado a mão ou ter sido um pouco desleixado. Mas damos uma chance a ele, pelo que já fez pelo cinema tem todo e qualquer direito de errar de vez em quando, desde que volte logo a nos apresentar um suspense de primeira. No próximo thriller scorseseano, estarei novamente na fileira inicial…

Notas (numa escala de 0 a 5):

Imagem: 4

Som: 3

Geral: 3

*Imagens: Rotten Tomatoes

**Trailer:

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15 Comentários para “Crítica: Ilha do Medo, de Martin Scorsese”

  1. Ka disse:

    Tem spoilers??

  2. Fábio Nazaré disse:

    @Ka: No texto? Acredito que não…

  3. sayuri disse:

    Assisti e acho que é o melhor filme do ano, até agora…Odiei o nome “Ilha do medo” puro marketing (de terror o filme não tem nada) Ótima direção, e destaque pra atuação do DiCaprio que é brilhante. =)

  4. Diego Flyfish disse:

    Não sou fã fudido de Scorsese (acho que sou um dos poucos que não gostou de Taxi Driver rs), mas me interessei por esse filme. Não sei se vou ver no cinema, mas ainda tou curioso.

    Boa crítica, Fábio.

  5. Fábio disse:

    @Fly: Acho que vale a pena ver no cine

    @Sayuri: O título não o mesmo que o do livro?

  6. sayuri disse:

    Não. O nome do livro é “Paciente 67” BEM MELHOR =) rs

  7. Ka disse:

    Desde que eu vi o trailer fiquei com vontade de assistir. Parece ser um bom filme, pelo clima que ele apresenta e tal;

  8. Fábio Nazaré disse:

    @Sayuri: Concordo hehe

  9. Tarta disse:

    @Fly Seu herege, pelo menos espero que vc tenha gostado dos Infiltrados.

    😀

  10. Fábio Nazaré disse:

    @Tarta: Rapaz, pra mim os Infiltrados nem se aproxima de Os Bons Companheiros, que é um FILMAÇO!!!!!!!!!!!!!!!!!

  11. Diego Flyfish disse:

    Infiltrados eu gostei. Taxi Driver quase dormi… Muito cabeça pra mim! Hahaha

  12. madinha disse:

    Boa Fábio, mas deve ser f*oda ser o Scorsese…sempre que o cara está pra lançar um filme o mínimo que se espera é “genial”, quando ele faz um filme que é “apenas bom” se sobressaem os erros… Assistirei, mas quando vi o trailer já saquei o final a la Shyamalan…

  13. Fábio disse:

    @Madinha: Boa colocação Madinha, sempre esperamos demais daqueles que consideramos excelentes.

  14. […] Crítica de Ilha do Medo (Por Fábio) […]

  15. DONNA disse:

    Não curti o filme de uma forma geral, mas o que mais me irritou foi a trilha sonora…

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