Crítica de Sábado Especial – Festival do Rio 2009

Meus caros ratos e traças cinéfilos, hoje temos uma edição especial das Críticas de Sábado, onde é apresentada a cobertura do Gaveteiro do Festival do Rio 2009, que ocorre entre os dias 24 de setembro e 8 de outubro e é o maior panorama do cinema nacional em território brasileiro. Há várias mostras temáticas, e neste sábado você pode desfrutar das resenhas de dois dos filmes mais representativos do Festival: Sonhos Roubados, de Sandra Werneck, e Distrito 9, de Neill Blomkamp. Caso queira conferir a programação, acesse o Site Oficial do evento; um bom fim de semana e ótima leitura!

Sonhos Roubados, de Sandra Werneck

Mostra Première Brasil – Competição Oficial

Cine Odeon Petrobras, Praça Mahatma Gandhi, 2, Cinelândia

Na fase pós-retomada os cineastas brasileiros conseguiram exposição e reconhecimento em todo o mundo explorando o caos social e as mazelas do país. Central do Brasil (1998), Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007) usaram e abusaram da pobreza, violência e o banditismo, aspectos que o Brasil tem a oferecer aos montes. Mas assim como esses filmes não tratam só desses assuntos, Sonhos Roubados (Brasil/2009), novo longa da diretora Sandra Werneck, aborda a vida crua da periferia do Rio de Janeiro; porém, adotando o olhar e a experiência femininos, o que aproxima o filme do longa de Walter Salles Jr.

É retratada no longa a trajetória de três amigas, Jéssica, Sabrina e Daiane, que vivem numa das centenas de favelas cariocas. Jéssica e Sabrina fazem pequenos programas para conseguir algum dinheiro, e apesar de não gostarem e terem consciência do perigo envolvido na prática, o fazem sem remorso; cada uma conta com seus motivos. Daiane, a mais nova (14 anos), inicialmente apenas observa as amigas agindo, mas acaba por enveredar pelo mesmo caminho. A pobreza e a luta pela sobrevivência diária servem como pano de fundo para os problemas maiores que as garotas vivem, de ordem familiar, amorosa e que envolvem a chegada à vida adulta. Sandra Werneck, apesar de fletar com o drama barato em alguns raros momentos, consegue transmitir sem alarde a forma como a maturidade forçada vem atropelando os anseios e projetos do trio protagonista.

A química entre as três atrizes que dão vida às protogonistas ajuda bastante no bom resultado final que é alcançado, a impressão é que Nanda Costa, Kika Farias e Amanda Diniz realmente se conhecem desde pequenas. Partircularmente, Amanda, que interpreta Daiane, faz com louvor a transposição entre a criança e a menina-mulher. O elenco de apoio, que tem alguns nomes de peso como o rapper M. V. Bill e alguns globais como Marieta Severo, Daniel Dantas e Nelson Xavier, dão o suporte necessário para o bom desempenho das meninas. Tecnicamente, o filme apresenta boa edição de som (Dolby Digital), bem como conta com a sempre competente fotografia do paraibano Walter Carvalho.

A opção por um final inconclusivo, que não suscinta esperanças, tampouco as dirime, é uma decisão acertada. Dada a reação do público na première, a fita tem chances de obter êxito na competição oficial. Apesar do subtexto social, o qual precisa ser revisto pelos nossos cineastas antes qua diversidade criativa fique amarrada, Werneck apresenta em Sonhos Roubados um estudo de como o meio pode esmagar e escurecer desejos, sonhos e relações humanas, os quais todos nós deveríamos ter pelo menos a chance de poder concretizar.

Notas (numa escala de 0 a 5):

Imagem: 4

Som: 3.5

Geral: 4

*Trailer:

Distrito 9, de Neill Blomkamp

Mostra Panorama do Cinema Mundial

Cine Leblon 1, Avenida Ataulfo de Paiva, 391, lojas A/B, Leblon

Como em qualquer atividade profissional, no mundo do cinema o apadrinhamento de talentos em potencial por parte de diretores já escaldados não é uma novidade; foram assim as relações Steven Spielberg – Robert Zemeckis e Robert Zemeckis – Peter Jackson. Jackson, agora sob o status de mega-cineasta, não poderia agir diferente, e é emprestando o nome para o primeiro longa-metragem do jovem diretor sul-africano Neill Blomkamp que o realizador da trilogia O Senhor dos Anéis banca O Poderoso Chefão.

Quando os primeiros trailers de Distrito 9 (District 9/EUA, Nova Zelândia/2009) começaram a pipocar na Internet foi despertado contíguo interesse por parte da comunidade cinéfila. O mote parecia ser muito bom, e de certa forma, bastante diverso do que é normalmente visto nas ficções científicas que atingem o circuito comercial. Certo dia, uma gigantesca nave extraterrestre, que guarda identidade visual com os bólidos de Independence Day, se instala no espaço aéreo de Johannesburgo, capital da África do Sul, para surpresa de todos (não foi Nova Iorque nem Los Angeles!). Após três meses com a nave parada no céu africano sem nenhum contato, um grupo formado por cientistas e militares resolve invadi-la à força, e acaba descobrindo uma população de alienígenas desnutridos e com problemas em seu meio de transporte. Após uma ajuda inicial aos visitantes do espaço, o curso da história toma um rumo bastante insólito, onde os alienígenas acabam sendo marginalizados e vivendo em favelas, criando um conflito social bastante experimentado pelo mundo subdesenvolvido, porém de proporções maiores. E onde há miséria e exclusão, há violência.

Não quero cair no lugar-comum de abordar possíveis citações ao Apartheid, uma vez que o filme se passa na terra de Nelson Mandela, e isso em nenhum momento é sequer mencionado na película. Entretanto, Blomkamp, que opta por alternar uma narrativa convencional mesclada com ar documental, mostra aptidão ao apresentar um cenário socialmente desgastado e onde o rancor e o medo das diferenças imperam. De fato, o senso de originalidade é o grande trunfo do filme, ao mostrar uma invasão alienígena de uma maneira nunca antes abordada; há ainda que se aludir o ótimo trabalho de efeitos visuais da Weta Digital, que combina a utilização de CGI com fenomenal maquiagem em set, pela primeira vez apresentando um trabalho à altura do que é produzido pela Industrial Light and Magic ou pela Digital Domain. Uma das passagens que servem de exemplo para este fato é uma metamorfose que homenageia a ficção científica gore de David Cronemberg, A Mosca, de 1987.

Contudo, há problemas. Após um primeiro ato fenomenal e no qual a tensão faz a gente grudar na cadeira, o filme atravessa um segundo ato arrastado e comum. Isso acontece por dois motivos principais, que acabam por minar a suspensão da crença tão necessário em filmes que tratam de fatos fantásticos, que em termos simples significa a capacidade que aquela obra em particular tem de nos fazer megulhar em seu universo, e por alguns momentos aquilo que achamos absurdo acaba não sendo tão impossível assim. O primeiro motivo concerne à maneira como o personagem Wikus Wan De Merwe, protagonista, é conduzido pelo desconhecido ator Sharlto Copley. Copley exagera ao imprimir características introvertidas e desajeitadas ao personagem, auxiliado por um roteiro que peca ao tentar inserir passagens cômicas em situações onde a tensão deveria ser mantida. O segundo motivo diz respeito à forma como os alienígenas lidam com seu armamento avançado e com a relação com os seres humanos, tornando pouco crível que seres tecnologicamente mais avançados possam ser subjugados tão facilmente.

Felizmente Blomkamp acerta a mão no quarto final, apresentando boas sequências de ação, e se não surge com um final arrebatador, pelo menos nos brinda com algumas sequências empolgantes e de beleza gráfica. Este primeiro contato do diretor sul-africano com o cinema de massas está aprovado, e se souber escolher bem os próximos projetos, poderá ir longe. Por enquanto, é só se divertir com Distrito 9.

Notas (numa escala de 0 a 5):

Imagem: 5

Som: 4

Geral: 3.5

*Imagens: Rotten Tomatoes

**Trailer:

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3 Comentários para “Crítica de Sábado Especial – Festival do Rio 2009”

  1. Aiken Frost disse:

    Caaara, District 9…. Eu estou arrancando os cabelos do sovaco de vontade de ver esse filme…

  2. Fábio disse:

    Deve doer bastante isso, hehe

  3. Raphael Redfield disse:

    Já vi o poster do alienígena no metro, mas pensei que era pra dizer que era apenas permitido humanos, pq tem gente que leva animal

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