Crítica: Cisne Negro, de Darren Aronofsky

A filmografia de Darren Aronofsky é bastante curiosa. Apesar de abordar temas bastante diversos, o diretor conseguiu, após cinco bons filmes, juntar um pacote autoral, algo não muito comum. Vejam, por exemplo, o cineasta de origem indiana M. Night Shyamalan, possuidor de uma vasta lista de filmes autorais, mas fortemente centrados numa linha central de pensamento. Não que o diretor nascido no Brooklyn nova-iorquino não trate de temas recorrentes, mas a capacidade de amealhar uma legião de fãs contando histórias tão díspares, a princípio, não é para muitos. Superestimado pela crítica, Cisne Negro (Black Swan/EUA/2010) consagra Aronofsky como alguém capaz de amalgamar público, prêmios e elogios, investindo em um conto essencialmente claustrofóbico e centrado na obsessão pelo perfeito.

Em Cisne Negro, Nina Sayers (Natalie Portman) pertence ao corpo de bailarinas do Lincoln Center, em Nova York, e vê sua grande chance de conseguir o papel principal em uma nova adaptação de O Lago dos Cisnes, quando o diretor da companhia (Vincent Cassel, de À Deriva) decide “aposentar” a bailarina principal (Winona Ryder, numa pequena participação). Nina é uma perfeccionista, mas acima de tudo sofre com a necessidade de aceitação, as auto-cobranças e a presença de uma mãe obsessiva (Barbara Hershey, que chegou à terceira idade muito parecida com o vocalista do Aerosmith – Steven Tyler), sentimentos e fatores que levam a garota à paranóia.

A história de tentativa de superação de Nina em conseguir o papel principal da montagem rende bom suspense em alguns momentos, onde a garota precisa interpretar tanto o Cisne Branco quanto o Cisne Negro, sendo que este último requer uma atuação sensual e menos travada, resultado que Nina apresenta dificuldades em obter. A indicação ao Oscar de Natalie Portman consagra a israelense como uma das principais atrizes da era hollywoodiana atual, carente de grandes estrelas femininas. Portman sempre foi bastante perspicaz na escolha de seus trabalhos, tendo iniciado a carreira atuando sobre a batuta de nomes fortes da indústria, como Tim Burton e George Lucas. Aqui não é diferente, do começo ao fim da projeção as feições da atriz conseguem marcar a platéia com o sentimento de inquietude e agonia de Nina. Há, ainda, um fato que funciona como contraponto ao que fora tratado até agora: existem duas ocasiões onde a sexualidade reprimida da personagem principal aflora de maneira arrebatada, constituindo cenas carregadas de sensualidade. Ou seja, a indicação ao prêmio da Academia não foi desmerecida.

O ambiente claustrofóbico da vida da bailarina é criado com competência. Além do emprego de uma fotografia acinzentada e quase desprovida de cores quentes, Aronofsky desperta reações no público ao proporcionar sequências bem angustiantes, como por exemplo, quando Nina arranca um pequeno pedaço de cutícula do dedo e começa a apresentar os primeiros surtos psicóticos, pelo menos sob a ótica do público. Todavia, o status de clássico que muitos críticos têm dado a Cisne Negro não tem razão de ser. O estudo da obsessão é realizado com alçada, as atuações em geral estão acima da média, mas já na parte final do filme o bombardeio de alucinações de Nina chega a cansar um pouco; e o espectador chega a questionar se o que se vê na tela é fruto de uma mente atormentada, ou são exageros de uma garota mimada. Alguns críticos entendidos de balé também andaram reclamando das cenas onde a dança é mostrada; eu, enquanto leigo neste assunto, as achei bem convincentes…

Sou um apreciador dos filmes de Aronofsky, o cara sabe criar boas histórias a partir de premissas simples e que geralmente não chamariam a atenção do público em geral (interessante, o filme mais “pipocão” dele – Fonte da Vida – é o que eu menos gosto); o que não é diferente com Cisne Negro. Filme que paradoxalmente cativa pela aflição e que merece a atenção que vem tendo; vale uma conferida.

Notas (numa escala de 0 a 5):

Imagem: 4

Som: 4

Geral: 4

*Imagens: Rotten Tomatoes

**Trailer:

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7 Comentários para “Crítica: Cisne Negro, de Darren Aronofsky”

  1. Vivi disse:

    Achei a premissa do filme interessante e me animei a ver.
    Ótima crítica, como sempre :)

  2. Diego Flyfish disse:

    Ainda não assisti, mas devo tá indo ver em breve.

    E o maior motivo disso é justamente por todo mundo tá falando tão bem do filme. Se fosse só pelo nome, eu nem teria a curiosidade de ver o trailer. rs

    E falando em trailer, pelo que vi, acho que o diretor usou muito da sonoplastia pra causar essa angústia que você fala, né? O som das unhas sendo cortadas incomoda.

    Piadinha cretina em anexo: alguém mais pensou nisso?

  3. Aiken Frost disse:

    Natalie Portman se agarrando com Mila Kunis. O filme me ganhou bem aí.

  4. henrique disse:

    Fonte da Vida, pipocão?

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