Crítica: Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes

Cinema, Aspirinas e Urubus (Brasil, 2005) foi o filme escolhido pelo Ministério da Cultura como representante brasileiro daquele ano para uma vaga entre os cinco melhores filmes de língua estrangeira na edição de 2006 do Oscar®. A eleição, na época, comprovava a qualidade do cinema produzido no Nordeste, em especial no estado de Pernambuco, pois outros dois filmes pernambucanos também participaram da competição: eles Árido Movie, de Lírio Ferreira; e A Máquina, de João Falcão.

A superioridade de “Cinema” sobre os concorrentes era indiscutível. Sem bairrismos ou sentimentos semelhantes, Urubus é um dos melhores filmes brasileiros produzidos na última década. Durante o transcorrer da Segunda Guerra Mundial, o alemão Johann, interpretado por Peter Ketnath, percorre o interior do Brasil com um caminhão vendendo e fazendo a promoção do remédio do título. Eventualmente Johann, que está no país fugido da Alemanha em conflito, oferece carona a transeuntes que encontra pelas estradas de terra do Brasil rural do começo do século XX. É numa dessas caronas pelo sertão pernambucano que Johann conhece Ranulpho (João Miguel), dando início a uma história de amizade das mais cativantes.

Johann e Ranulpho são parecidos, apesar das origens distintas. Um está longe da terra natal, o outro tentando sair duma região miserável e sem perspectiva de uma vida sem tanto sofrimento. São ambos solitários. A maneira com a qual o diretor Marcelo Gomes principia e dá continuidade à relação entre os personagens cativa a platéia. O filme segue lento, sem afobações, e a amizade entre Johann e Ranulpho vai crescendo e se tornando cada vez mais sincera, uma vez que cada um dos homens começa a entender e de certo modo até a comover-se com a história do outro. Esse companheirismo simples e verdadeiro é o fio que conduz “Urubus”.

O filme também se propõe a seguir por outras vias. Chega a flertar com a metalinguagem, já que Johann utiliza filmes ilustrativos sobre a Aspirina para propagandear o produto, deixando maravilhadas as populações das cidades pobres por onde passa. É a capacidade que a mais importante mídia do século XX possui de influenciar as pessoas, algumas vezes de forma benéfica, outras não. Ainda, “Urubus” pode ser visto em determinadas ocasiões como uma homenagem às populações sertanejas do nordeste, ao povo simples e que passa por privações extremas, ainda mais na época em que o filme se passa. Como não se sentir emocionado pelo monólogo de Ranulpho sobre a odisséia nordestina? As atuações de João Miguel e Peter Ketnath são contidas e naturais, contribuindo para a veracidade do relacionamento entre seus personagens. O elenco de apoio, constituído principalmente por atores advindos da cena teatral/cinematográfica recifense, também trabalha de forma consistente (Hermila Guedes tem uma pequena participação, porém marcante). O ótimo roteiro é assinado pelo cearense Karim Ainouz (Abril Despedaçado, Cidade Baixa, O Céu de Suely), Paulo Caldas e Marcelo Gomes. Também é importante mencionar a fotografia criativa de Mauro Pinheiro Jr., que transmite a constante sensação de calor e cansaço. Cinema, Aspirinas e Urubus é um filme belo e que toca o espectador sem lançar mão de lugares comuns. Ainda há esperança para o cinema brasileiro! O filme foi lançado em DVD, porém, infelizmente o disco é de difícil acesso, e poucas locadoras ou lojas o disponibilizam. Se durante uma visita à sua locadora você encontrar um exemplar, não exite em levá-lo para casa.

Notas (numa escala de 0 a 5):

– Imagem: 4

– Som: 3

– Geral: 4.5

Trailer:

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2 Comentários para “Crítica: Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes”

  1. JrMatos disse:

    Olá, tem interesse em participar de uma rede de conteúdo? se tiver me adiciona no msn ocasional80@yahoo.com.br ou me manda um email. Abraços Samuel

  2. ADELSON MENDES DE ASSIS disse:

    BOA NOITE.

    RARAMENTE O CINEMA NACIONAL BRASILEIRO APRESENTA FILMES DESTE TIPO.
    NA ÉPOCA EM QUE FOI LANÇADO NÃO PUDE ASSISTIR POIS VIAJO MUITO.
    PORÉM DEIXO AÍ MEUS ELOGIOS.O FLME É ÓTIMO E EXELENTE!

    ADELSON

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