Crítica: Aeon Flux, de Karyn Kusama

Se algum dia for contada a história da animação adulta o canal de televisão norte-americano Music Television (MTV) não poderá deixar de ser citado. Muitos animadores perceberam no canal um nicho para o desenvolvimento da animação voltada para os mais velhos, vide as vinhetas nonsense e clássicos como Beavis & Butt-Head.

Aeon Flux (Aeon Flux/EUA/2005) é a adaptação para o cinema do desenho que foi um dos segmentos da Liquid Television da MTV que fez mais sucesso. Os capítulos misturavam ficção científica, abordando temas como manipulação genética, clonagem, vida extreterrestre e biorobótica; com misticismo oriental, sensualidade e algumas boas cenas de ação. Os traços físicos dos personagens rapidamente revelavam que o seriado não tinha crianças como público-alvo, as pessoas tinham feições robustas e disformes, chegando até causar incômodo.

Já a adaptação para a tela grande do desenho criado por Peter Chung (também criador de Alexander Senki) foge um pouco do conceito inicial da série. A ação transcorre no ano de 2415, quatro séculos depois de um vírus ter eliminado quase que totalmente a população humana do planeta. O último reduto humano é a cidade de Bregna, com cinco milhões de habitantes e isolada do mundo exterior, que é governada desde começo da epidemia viral pelo clã dos Goodchild. Misteriosos desaparecimentos de cidadãos e o governo absolutista fazem surgir um grupo reacionário, “Os Monicanos”, que mantém uma legião de assassinos e terroristas dispostos a derrubar o governo do presidente Trevor Goodchild.

É possível imaginar as concessões que os roteiristas tiveram que fazer para levar o filme aos cinemas. Como o objetivo é atingir uma parcela bem maior do público do que quarentões notívagos e solitários, algumas mudanças foram feitas. O desenho tinha forte inspiração nos mangás japoneses, dado o teor das histórias e o visual rebuscado. Entretanto, pouco sobrou dessa influência na versão cinematográfica, como o figurino (muito bom por sinal). Para acolher a platéia adolescente (leia-se diminuir a censura) a lascívia que permeava muitas das ações de Aeon, através das vestimentas e da relação com Trevor, foi praticamente abolida. É também interessante notar como a relação de ódio e amor entre Aeon e Trevor foi alterada, passando rapidamente do amor conflituoso para o amor romântico e meloso; o que ocorre em grande parte devido também a mudanças no caráter de Goodchild, que no desenho apresentava intenções bem mais dúbias e politicamente incorretas que no filme.

As atuações são apenas razoáveis, nem este é um tipo de filme que necessita de arroubos de performance. Charlize Theron tem desempenho burocrático encarnando Aeon e está bonita como na maioria das vezes. O ator neozelandês Marton Csokas faz um Trevor Goodchild apático e sem a imponência do personagem dos desenhos. O enredo por trás da apresentação inicial da trama é bem interessante e criativo, porém o cinéfilo mais rigoroso vai notar alguns furos de grande proporção, cujas descrições caracterizam spoilers, portanto não serão comentados. Há boas seqüências de ação e uma característica que merece ser citada: foi feita a opção por uma concepção visual futurista limpa e insossa, indo na mão contrária do desenho, que representava a metrópole como um ambiente decadente, sujo e violento. É neste momento que a locação original do filme, Brasília, poderia ter sido uma escolha mais acertada que a gélida e desenvolvida Berlin. Aeon Flux é diversão sem expectativas e não deve ser assistido junto de pessoas muito metódicas. Um prato cheio para uma exibição na Sessão da Tarde.

Notas (numa escala de 0 a 5):

– Imagem: 4

– Som: 4

– Geral: 3

*Imagens: Rotten Tomatoes

**Trailer:

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