Crítica: Árido Movie, de Lirio Ferreira

Uma confusão se estabelece no final da projeção de Árido Movie (Brasil/2005), segundo filme do diretor Lirio Ferreira, de Baile Perfumado (1997). O confronto entre os ambientes urbanos e interioranos apresentado reflete a relação do espectador brasileiro em relação ao filme; tem-se a nítida impressão de que se trata uma obra carregada de temas recursivos no cinema nacional, como a penúria sertaneja e o coronelismo que ainda habita sítios ermos do país; mas também fica bem claro que Lírio Ferreira dirige na contra-mão do que o grande público está acostumado a ver, como as produções da Globo Filmes ou os filmes simpáticos de Guel Arraes.

Contando a história de Jonas (Guilherme Weber), repórter do tempo que retorna a Pernambuco depois do assassinato do pai que mal conhecia, o roteiro revisita o conto do retorno às origens esquecidas, mas não completamente extirpadas. Esse é o primeiro aspecto que diferencia Árido Movie de seus pares; não se quer mostrar a truculência da periferia recifense (Amarelo Manga) ou o cotidiano amoral e até criminoso de uma cidade pobre do interior do Nordeste (Baixio das Bestas) – a jogada é mais intimista, assim como ocorre em O Céu de Suely, de Karim Aïnouz. Jonas, já habituado ao dia-a-dia da capital paulista (assim ele o pensa), encontra-se diante de um passado guardado e povoado por pessoas que não seguem regras as quais não sejam as das próprias famílias, resquícios das sociedades patriarcais que ainda pululam aqui e ali no Nordeste.

A densidade da narrativa é diluída por duas histórias paralelas. A primeira delas, bem bobinha, acompanha os amigos desmiolados de Jonas: Vera (Mariana Lima), Bob (Selton Melo) e Falcão (Gustavo Falcão). O trio cumpre duas funções bem moldadas. A primeira é servir como uma homenagem de Lírio Ferreira àqueles que participaram e estabeleceram as bases da cena recifense do início dos anos 90, a qual pode ser traduzida em expressões literárias, cinematográficas, e acima de tudo, musicais; este foi o último grande suspiro de criatividade artística não só no Nordeste, mas no país como um todo.

A segunda função é fincar um pé no quase politicamente incorreto. O três amigos, bem como boa parte dos personagens, consomem cigarros de maconha sem rodeios, e tudo isso é mostrado, ainda bem, sem firulas carolas. As cenas de Vera, Bob e Falcão poderiam ser consideradas panfletos em favor do consumo recreativo da erva (dá para imaginar a quantidade de gente que ficou babando vendo esse filme…), contudo, o caráter político se perde com o humor e com as punições que os três sofrem durante o filme devido à busca pela droga. Nada didático como em Tropa de Elite, mas penso que a intenção dos roteiristas era de fato apenas proporcionar um alívio cômico de dedos amarelados, e não instigar um debate mais sério acerca da criminalização do uso da maconha.

A segunda história paralela, totalmente descartável, diz respeito a uma seita relacionada com o racionamento de água no sertão. A tentativa de ligar essa seita undífera desvairada e biruta (cujo líder chama-se Meu Velho e é interpretado pelo excêntrico Zé Celso) com temas como o consumo de alucinógenos e o coronelismo é frustrada. Árido Movie passaria muito bem sem Meu Velho e a empáfia de Soledad, personagem de Giulia Gam. Os destaques, todavia, estão na atuação de José Dumont, no comum papel do tiozinho sábio (Morgan Freeman!), mas muito bem executado, na  boa trilha sonora de Otto e Pupilo, e no final extremamente non-sense.

Não há como negar que o filme de Lírio Ferreira, assim como boa parte do que tem sido produzido no eixo Pernambuco – Ceará, não se encaixa no perfil cinematográfico brasileiro. Árido Movie procura se focar no individual em detrimento do coletivo; as mazelas do povo sertanejo são apenas pano de fundo. Isso torna o filme mais próximo de nós, e, apesar de não ser perfeito tanto em termos narrativos quanto de originalidade, entretém sem seguir a cartilha da Escola de Cinema Daniel Filho.

Notas (numa escala de 0 a 5):

Imagem: 4

Som: 3

Geral: 3

*Imagens: Adoro Cinema

**Trailer:

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