Crítica Dupla: Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol

Dois bons atores, diálogos inteligentes, duas cidades lindas como cenário e uma história de amor. “Antes do Amanhecer” (Before Sunrise, EUA/Áustria/Suíça, 1995) e sua honestíssima continuação “Antes do Pôr-do-Sol” (Before Sunset, EUA, 2004) são estruturados apenas sobre esses pilares e mostram como a simplicidade bem executada pode garantir belas obras cinematográficas. Os dois filmes garantem identificação imediata com os personagens e logo se tornam aquelas obras que ficam com um gosto de filmes queridos, que a gente lembra com carinho e quer sempre assistir de novo.

Vamos à história. Dois jovens se conhecem em uma viagem pela Europa,  num trem que vai de Budapeste para Paris. Jesse (Ethan Hawke) é  americano, Celine (Julie Delpy), francesa. Eles se vêem, simpatizam um com o outro, tomam um café, começam a conversar e acontece uma empatia imediata. Só que eles têm que se separar nos próximos instantes, quando o trem parar na estação. O rapaz faz então um convite: eles descerão juntos em Viena e poderão conversar e se conhecer um pouco mais até pegarem o próximo trem.

E assim, sem dinheiro, eira nem beira, passam uma noite na cidade. Enquanto passeiam por Viena, andando por parques, descansando em fontes e conhecendo poetas marginais, conversam sobre assuntos que vão desde política, sonhos para o futuro, família, diferenças entre homens e mulheres e tudo o mais que faz parte da vida deles e de todos nós – e aí está a grande sacada. Acontece que apesar de toda a idealização do cenário ultra-romântico, mais do que qualquer outra coisa, a beleza e a força do filme está justamente nessas conversas, no que há de lindo em comungar um pedaço da sua vida com alguém especial, situação que na verdade não escolhe lugar para acontecer. Como eles têm poucas horas juntos, tudo é aproveitado ao máximo até o momento em que eles terão que seguir seus caminhos e se separarem. “Antes do Amanhecer” tem um final pouco convencional e que cada um pode interpretar como quiser.

E é justamente se aproveitando dessa deixa que os atores e o diretor Richard Linklater resolveram filmar a coerente continuação “Antes do Pôr-do-sol”. Nove anos depois, Jesse  escreveu um livro sobre as horas que passou ao lado de Celine. Ao fazer o lançamento do livro em uma pequena livraria em Paris, advinhem quem ele reencontra? Sim, depois de quase uma década sem terem a menor notícia um do outro, lá está Celine. E de novo, eles têm pouco tempo juntos até que ele pegue o avião de volta para Nova York. Mais uma vez, eles saem para conversar pela cidade, agora, com outro viés. Ele se casou e tem um filho. Ela trabalha em uma organização social e namora um fotógrafo que vive pelo mundo.

Mérito da continuação mostrar a evolução dos personagens, que, embora mantenham a mesma personalidade, mostram-se amadurecidos. Se no primeiro filme, recém saídos da adolescência, Jesse e Celine eram dois idealistas de classe média, dez anos depois, já na casa dos trinta, trazem na mala algum sofrimento e amargam relacionamentos que não são felizes. Mas nada que tenha mudado a forma esperançosa como eles vêem o mundo e, o mais importante no caso do filme, o desejo que eles (e quem não? ) têm de viver uma grande história de amor.  Agora, eles já se conhecem e o que está em jogo no encontro é decidir se vão ou não apostar na paixão que sentem um pelo outro e que se manteve viva na memória esse tempo todo.

“Antes do Amanhecer” e “Antes do Pôr-do-Sol” são o tipo de filme ancorado nos personagens principais, aliás, nesse caso quase únicos. E sim, os protagonistas dão conta do recado com ótimas atuações e o que é mais importante, fazendo qualquer um se identificar com eles. Hawke está charmoso como sempre e ainda ganhou bem mais em elegância no segundo filme. Delpy está divertida e linda como Celine  e acaba se destacando em alguns momentos sobre o seu companheiro de cena. Um detalhe curioso é que “Antes do Pôr-do-sol” se passa em tempo real – a dupla tem pouco mais uma hora juntos, o que deu ao diretor poucas horas de filmagem por dia para que houvesse coerência temporal.

Vale a pena assistir os dois filmes juntos ou com pouco espaço de tempo entre eles. Fazer uma continuação do primeiro filme foi uma decisão conjunta do diretor e dos dois atores principais. A idéia foi burilada por anos por meio de conversas e emails. Inclusive, Hawke e Delpy foram co-roteiristas da obra, acrescentando pontos de suas vidas na história; Hawke, por exemplo, estava se separando da atriz Uma Thurman no período. Acredito que o amor da equipe pela obra ajudou a tornar esses trabalhos ainda mais humanos e sensíveis.  – amor sincero, diga-se de passsagem, já que o primeiro trabalho não rendeu lá essas coisas para valer o retorno financeiro. O grupo estuda, inclusive, fazer outras continuações da história de Celine e Jesse. Se forem feitos com  a qualidade dos seus antecessores, serão muito bem-vindos.

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6 Comentários para “Crítica Dupla: Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol”

  1. Vivi disse:

    Gostei da sua crítica, Júlia!
    Vou procurar assistir aos filmes.
    Bjs. 😉

  2. Júlia Veras disse:

    Fico feliz, Vivi, vale a pena.

    =D

    Beijos

  3. Diego Flyfish disse:

    Até me interessei pelos filmes também, Júlia. Mas não entendi isso que você falou que o segundo se passa em tempo real… Como assim? Os caras filmaram tudo em um dia? o.O

  4. Júlia Veras disse:

    Hahahaha, não, Diego.

    Isso significa que minuto que passa no filme também passa para os personagens. O segundo filme dura cerca de uma hora e vinte e é esse o tempo que eles têm para ficar juntos. Tipo aquele seriado “24 Horas”, saca?
    No primeiro filme, que dura mais ou menos a mesma coisa, eles passam 12 horas juntos na ficção.

    Será que eu me fiz clara ou pioreia situação? 😛

    Beijos

  5. Ewerton disse:

    Antes do Amanhecer… vivi uma história de amor bem parecida. O filme já era meu predileto, mas após conhecer uma mulher maravilhosa com quem tive um relacionamento muito curto, passou a ser minha referência! O filme é bom, retrata o que muitos casais passam… o tempo, a rapidez com que são engolidos os momentos e a ânsia de querermos tudo muito rápido… e a verdadeira prova de que nunca devemos deixar nada para depois, que devemos aproveitar ao máximo nossos momentos de felicidade! Excelente!!!

  6. Perfeito os dois filmes, adorooo!!!

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