Realidade Virtual: Games Fazem Arte

Games e a definição de arte

É fato que os videogames estão cada vez mais intrínsecos na cultura popular contemporânea. Devido a essa importância na sociedade, o intuito de criar a coluna aqui no Gaveteiro é justamente discutir essa influência no cotidiano das pessoas e em diversos níveis. Recentemente descobri tantos assuntos para serem aqui colocados, que já começo a ficar perdido sobre o que exatamente escrever. Já foram tantas pesquisas que, numa dessas, esbarrei em um tema interessante e que também faz parte da cadeia evolucionária dos jogos eletrônicos, o “Pixel Art”, e o conceito de que jogos eletrônicos seriam também uma forma de arte! Antes de falar sobre o Pixel Art, quero saber, qual é a sua opinião sobre o assunto?

Em 2005, o mais famoso crítico de cinema do mundo, Roger Ebert (do Chicago Sun Times), causou uma controvérsia sem precedentes na história dos videogames. Ebert declarou que não considera os games como uma forma de arte. “São inerentes inferiores ao cinema e à literatura”. A argumentação de Ebert é a seguinte: “a natureza dos videogames envolvem a questão de escolha: que caminho seguir. Enquanto que a literatura e o cinema, exemplos de arte sofisticada, requerem controle na forma do autor: o controle da mensagem a ser passada”

Matéria publicada por Felipe Levra, “Cinema e Videogames”, revista EGW Nº99, pg 40 – Março de 2010

A opinião do diretor ilustra um momento interessante dos jogos eletrônicos, a convergência. Os games deixaram de ser meros produtos de laboratório de computação e passaram a ser uma ferramenta tão híbrida que envolve aspectos da cultura, como os quadrinhos, televisão e esportes, por exemplo. Tirando a capacidade imersiva e o potencial interativo, os games se traduzem também em uma forma de arte assim como o cinema e a literatura. Os jogos estão, cada vez mais, usando artifícios cinematográficos como: produção de um bom roteiro, posição de câmera e emoção nas cenas. Talvez Ebert nunca tenha notado como essas duas mídias andam juntas, mas acredito que você conseguiria  facilmente  citar vários exemplos onde pode-se verificar, dentro dos games, aspectos de narrativa cinematográfica.

Abertura de Diablo I (1996) aterrorizante. Eu tomei sustos quando joguei

Pixel Art – uma arte originária dos games

O Pixel Art nada mais é do que um desses fenômenos originados na produção de games. Esse tipo de arte digital surgiu ainda na época em que os videogames tinham como base o formato “quadradado” de desenho (O Pong e a sua bola quadrada no melhor estilo Kiko do Chaves). O formato tinha por finalidade compensar as restrições tecnológicas quanto ao número de cores e de espaço nos cartuchos. Desta maneira surgiu o conceito de Pixel Art, um tipo de ilustração digital no qual a imagem é desenhada ponto a ponto (pixel a pixel).

O mais absurdo dessa técnica é que ela não exige grandes softwares para a produção. Isso mesmo nada de softwares pesados como os que trabalham com 3D (Maya, Unreal Engine, etc). Para desenhar sobre esse conceito são necessários apenas o Paint Brush (ou similares) e várias horas de treino. O curioso é que esse tipo de trabalho leva inúmeras horas e depende muito do tamanho do papel e da riqueza de detalhes propostas. Quando finalizado o desenho digital assume uma forma única que remonta ao auge dos antigos games. Alguns exemplos:

No melhor estilo “onde está Wally?”. Material publicitário

O fenômeno também está presente na realidade fora do computador, como no desenho abaixo, de um metrô francês inspirado na técnica.

O Pixel Art remonta a uma época em que os videogames e a sua tecnologia 2D se traduziam no que de mais avançado existia no mundo. Não cabia ao criador escolher como fazer. Ele só poderia trabalhar dessa maneira. E, por que, essa forma de “arte digital” está se tornando tão popular nos dias de hoje em que o desenvolvimento 3D alcança níveis inimagináveis?

Talvez pela sua originalidade e, por isso, esbarramos novamente no conceito de arte. O que demonstra que não importa discutir qual lápis você utiliza para escrever e sim que tipo de escritor você é. O foco não é a ferramenta e sim quem a produz. Desta maneira, não adianta conhecer a ferramenta mais moderna se você não possuí “o controle da mensagem a ser passada” justamente aquilo que o cineasta Roger Ebert disse faltar nos games.

O Pixel Art e o game Habbo Hotel

O Habbo Hotel foi criado em 2001 e chegou ao Brasil em meados de 2006. O game nada mais é do que um bate-papo ONLINE todo construído sobre a idéia de um hotel fictício tendo como foco os adolescentes, e que permite aos usuários uma interação entre avatares no melhor estilo Second Life, só que sem toda a “pompa” e realidade envolvida nesse segundo game que é essencialmente em 3D.

O Habbo funciona como comunidade virtual dentro de um hotel, onde cada usuário possui um quarto que pode ser preenchido à sua maneira por objetos em pixel art. O player tem a possibilidade de visitar outros quartos além de ter acesso a vários locais do hotel como clube, salão de jogos, piscinas, bibliotecas, cinemas etc. Com o foco nos adolescentes o game sofre alterações da cultura pop, adotando além da linguagem escrita o design de objetos e quartos. Não é difícil você esbarrar em um bonequinho estilo Lady Gaga, ou entrar em um quarto decorado no estilo do filme Crepúsculo.

O game também possui outros aspectos interessantes como: presença de um jornalzinho diário – será que eles possuem algum jornalista de verdade atuando por lá? Bem, isso não é informado.  Além do patrocínio de empresas como a Sprite (nada mais jovem) e MTV.

No Habbo também pode ser encontrados alguns artistas da vida real com avatares. Normalmente eles são convidados especiais e ficam em salas reservadas para os poucos usuários que conseguem sobreviver a uma considerável fila (estilo fila de banco mesmo). Os convidados normalmente são ligados à cultura pop adolescente, dentre eles o mais famoso é a VJ brasileira Marimoon que já visitou o Habbo Hotel inúmeras vezes.

Por fim, o Habbo Hotel proporciona uma experiência bastante divertida e diferente. Deixa um pouco a desejar no quesito áudio, mas o fato de ser um game em pixel art, envolvendo uma jogabilidade nada comum, já atrai pelo menos a curiosidade. Imagine quanto tempo eles não levaram para desenhar cada detalhe? E de uma maneira geral ilustra bem o fato de como os games são híbridos e artísticos, certo, Roger Ebert?!

P.S.1.: Eu tenho um primo bem pivete que adora esse game. É viciado. Numa dessas lá em casa o pirralho encheu o saco para colocar o bonequinho (avatar) dele na fila do MTV Awards americano, isso umas 3h da tarde, onde uma porrada de bonequinhos já fazia fila indiana para ter acesso a 50 lugares e interagir com um “zé alguma coisa” dessas bandinhas novas… As 6h começava a entrevista e já pertinho o pirralho não consegiu! Putzz talvez se ele nerdasse desde as 5h da manhã tivesse um chance neh?! hehehe. Bem, pelo menos eu fui consciente de não dar essa dica! Não no meu computador!! Denovo não!!!!

P.S.2.: Faço aqui um convite para visitarem o meu quarto no Habbo. Recentemente adquiri uma garrafinha para brincar de verdade e conseqüência. Simbora?

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Sem comentários ainda para “Realidade Virtual: Games Fazem Arte”

  1. Júlia Veras disse:

    Só deixando claro que não saco nada de videogame, mas acho que a colocação do crítico é bastante ultrapassada, assim como um conceito tão rígido do que é autoria e recepção. É clichê, mas lendo o texto, só lembrei de Nação: “Computadores fazem arte, Artistas fazem dinheiro. Computadores avançam, Artistas pegam carona. Cientistas criam robôs, Artistas levam a fama”.

  2. Diego Flyfish disse:

    E aí Miltinho, ótimo artigo cara. Acho que foi o seu melhor até então. Só tenho uma crítica.. Acho que você começou tocando em um ponto mais polêmico, mas acabou meio “panos quentes” Hehehe…

    Parabéns aí!

    Ah, e concordo com o que a Júlia falou. Acho que afastar os Games de outras mídias (como cinema e literatura), hoje em dia, é dá tiro no pé.

    Abração.

  3. Fábio disse:

    Os games hoje em dia movimentam mais dinheiro que o cinema, alguns tem historias e roteiros bem mais interessantes. Já não importa classificar o que é arte ou não, mas que a indústria dos jogos tem conseguido entregar produtos de qualidade, as vezes bem superiores aos Michael Bays da vida, isso não há como negar… Gostei muito do texto!

  4. Milton Rodrigues disse:

    Cara tô nem acreditando!!!! Eu ouvi essa música antes de escrever juro 🙂 – título editado –

    O meu foco era falar sobre o Pixel Art, mas achei muito foda uma matéria que saiu na EGW do mês passado. Ela aborda bem esse paradoxo no conceito de arte. Quem tiver a oportunidade vai nas bancas…

    Abraços!!

  5. Fábio disse:

    Taí raz0r!
    [youtube=http://www.youtube.com/watch?v=klffiKtew00&feature=related]

  6. Tarta disse:

    Putz Habbo Hotel fazia tempo que eu não via isso. Tb existia um tal de Coke Music, que como fica claro no nome era da coca cola, e tinha o mesmo conceito do Habbo Hotel. So que o diferencial era que vc tinha tipo uns equipamento de mixagem e podia gravar uns sons e colocar pra rolar numas salas onde a galera votava nas melhores montagens.

    Eu curtia fazer Pixel Art a uns tempos atrás, tinha um tutorial legal sobre isso no site do mxstudios.

    • Milton Rodrigues disse:

      Esse coke music eu tô por fora. Será que era uma promoção do refrigerante visando premiar as melhores mixagens?!

      Ele funcionava também como uma comunidade virtual é?

  7. Anderson Borges disse:

    esse crítico só queria causar polemica, os jogos, sempre transmitem a mensagem que seus autores desejam, mesmo tendo, os jogadores liberdade de interagir com o game, isso não o torna menos arte, mesmo porque, quem é artista sabe que o meio mais exato de se medir a arte é pela capacidade de expressão e polularidade que a obra alcança e além do mais tem jogo que ainda vira filme

  8. Júlia Veras disse:

    Coincidentemente, a capa do caderno C, a editoria de cultura do Jornal do Commercio, aqui de Pernambuco, foi examentente sobre esse assunto. O título da matéria é “Games como estética”, e entre os exemplos da relevância cultural dos games, um jogo chamado “Braide” que traz referências do pintor impressionista Claude Monet. Quem tiver a senha do uol, pode entrar pela internet.

    http://jc3.uol.com.br/jornal/2010/04/05/can_13.php

    Beijos a todos.

    @ Fábio: Devia ter colocado um vídeo do Mundo Livre, né não? hahahaha.

    Beijo para tu.

  9. Milton Rodrigues disse:

    Nossa que curioso. Vou correndo comprar!!!

    @Júlia Veras: Tu é de Recife?!

  10. Matches disse:

    Pixel Art é lindo demais. Mas dá uma trabalheira, ahuahua.
    Videogames podem ser considerados arte, mas o problema é tentar enaltecer isso. Vide o caso de MGS4, quiseram tanto fazer algo belo e incrível, que projetaram uma história confusa e CGIs de 30 min o que é um pé no saco. Nos videogames o quesito público tem quer ser muito mais levado em conta do que no cinema o na literatura.

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