Conto: Um Sussurro nas Trevas – Parte 7

Um Sussurro nas Trevas

H. P. Lovecraft

VI

suss7Recusando-me a permitir que esses receios nebulosos me dominassem, lembrei-me das instruções de Noyes e empurrei a porta branca à minha esquerda, uma porta com seis almofadas e ferragens de bronze. O aposento estava na penumbra, como eu fora avisado; e ao entrar, notei que o odor estranho era mais forte ali. Da mesma forma, parecia haver no ar um ritmo ou vibração, leve e quase imaginário. Por um momento, não enxerguei quase nada, mas logo depois um som de sussurro, em tom de desculpa, atraiu minha atenção para uma enorme poltrona, no canto mais distante e mais escuro da sala. Entre suas sombras divisei a mancha branca do rosto e das mãos de um homem; e daí a um instante, havia atravessado o cômodo, para cumprimentar o vulto que tentara falar. Embora a luz fosse bastante fraca, constatei que aquele era efetivamente meu hospedeiro. Eu havia estudado a fotografia repetidamente e não podia confundir aquele rosto firme e marcado pelo tempo, com a barba aparada e grisalha.

No entanto, ao contemplá-lo outra vez, senti tristeza e apreensão, pois era visível que aquele rosto era o de um homem muito doente. Achei que devia haver alguma coisa mais séria do que asma por trás daquela expressão tensa, rígida e imóvel, bem como atrás daquele olhar vítreo. Compreendi até onde Akeley devia ter sido abalado por suas terríveis, experiências. Não seriam suficientes para quebrantar qualquer pessoa — mesmo um homem mais moço que aquele intrépido explorador do proibido? O inesperado e súbito alívio, temi, havia chegado tarde demais para salvá-lo de alguma coisa que se assemelhava a um colapso geral. Havia alguma coisa de lamentável na maneira inerte como as mãos magras repousavam em seu regaço. Ele vestia um casaco largo, e tinha um xale ou capuz, de um amarelo vivo, em torno da cabeça e do pescoço.

Vi então que ele estava tentando falar, no mesmo sussurro débil com que me saudara. Era um murmúrio difícil de se entender a princípio, uma vez que o bigode grisalho ocultava todos os movimentos dos lábios, e alguma coisa em seu timbre me perturbou enormemente; todavia, concentrando a atenção, logo pude perceber, com surpreendente facilidade, o que ele queria dizer. O tom da voz não era de maneira alguma rústico e sua linguagem era ainda mais polida do que a correspondência me levara a esperar.

— Sr. Wilmarth, não? Por favor, perdoe-me por não me levantar. Estou bastante doente, como Noyes lhe deve ter dito. Mas não resisti a desejar que o senhor viesse, assim mesmo. O senhor se lembra do que lhe contei em minha última carta… há muito o que conversarmos amanhã, quando eu me sentir melhor. Não tenho palavras para exprimir o quanto estou feliz por conhecê-lo pessoalmente, depois de tantas cartas. O senhor decerto trouxe a pasta consigo, não? E também as fotografias e gravações? Noyes colocou sua valise no salão… creio que o senhor a viu ali. Infelizmente, acho que hoje o senhor não poderá ter muita ajuda minha para se instalar. Seu quarto fica no andar de cima… em cima deste… e o senhor verá a porta do banheiro aberta, junto da escada. A mesa está posta para o senhor na sala de jantar… passe por essa porta à sua direita… e o senhor poderá tomar a refeição quando quiser. Prometo ser melhor anfitrião amanhã… mas neste momento a debilitação me deixa imprestável.

— Fique à vontade… Talvez convenha o senhor tirar da valise as cartas, as fotografias e as gravações e colocá-las sobre essa mesa aqui, ante s de subir. Será aqui que falaremos sobre essas coisas… meu fonógrafo está ali, naquela mesinha do canto.

— Não, obrigado… o senhor nada pode fazer por mim. Conheço essas crises há muito tempo. Volte aqui para dois dedos de prosa mais tarde, e depois se recolha, quando lhe aprouver. Vou descansar aqui mesmo… talvez até durma aqui a noite inteira, como faço freqüentemente. De manhã estarei em muito melhor condição para tratar dos assuntos que nos interessam. O senhor certamente se dá conta da natureza fantástica da questão de que tomamos conhecimento. Abriu-se para nós, como já aconteceu com alguns raros homens neste mundo, um abismo de tempo, de espaço e de conhecimentos sem paralelo na ciência ou na filosofia humana.

— Sabe o senhor que Einstein está errado e que certos objetos e forças podem mover-se a velocidade maior que a da luz? Com ajuda adequada, espero poder recuar e avançar no tempo e verdadeiramente ver e sentir a Terra do passado remoto e de eras futuras. O senhor não pode imaginar até onde esses seres levaram a ciência. Não há nada que não possam fazer com a mente e o corpo de organismos vivos. Espero visitar outros planetas e até outras estrelas e galáxias. A primeira viagem será a Yuggoth, o mais próximo planeta plenamente povoado pelos seres. É um estranho mundo sombrio, na fímbria de nosso sistema solar… ainda desconhecido dos astrônomos. Mas com certeza já lhe escrevi sobre isso. Na época adequada, os seres que ali vivem hão de emitir correntes mentais em nossa direção e provocar a descoberta do planeta… ou talvez autorizar um de seus aliados humanos a soltar uma pista para os cientistas.

— Há cidades imponentes em Yuggoth… fileiras colossais de torres escalonadas de pedra negra, semelhante ao espécime que lhe tentei remeter. Aquela pedra veio de Yuggoth. O sol não brilha ali mais que uma estrela comum, mas os seres não carecem de luz. Possuem outros sentidos, mais sutis, e não abrem janelas em suas casas e templos. A luz até mesmo os fere, atrapalha e prejudica, pois não existe luz alguma no cosmo negro, além do espaço e do tempo, de onde provieram originalmente. Visitar Yuggoth levaria à loucura um homem fraco… e, no entanto, eu irei lá. Os rios negros como piche que correm sob aquelas misteriosas pontes ciclópicas… coisas construídas por uma raça antiga, extinta e já esquecida antes que os seres chegassem a Yuggoth, vindos dos vácuos mais recônditos… devem bastar para transformar qualquer homem num Dante ou num Poe, isso no caso de conservar o juízo por tempo suficiente para narrar o que viu.

— Entretanto, veja bem: aquele mundo sombrio de jardins fungóides e de cidades sem janelas na verdade não é horrendo. É possível que este nosso mundo tenha parecido também horrendo para os seres, quando pela primeira vez o exploraram, na infância da Terra. Como o senhor sabe, eles estiveram aqui muito antes que terminasse a era fabulosa de Cthulhu, e lembram-se de tudo que se refere à submersa cidade de R’lyeh quando ela ainda pairava sobre as águas. Já estiveram também no interior da Terra! Há aberturas inteiramente desconhecidas pelos homens, algumas nestas mesmas montanhas do Vermont, e grandes mundos de vida que ignoramos: K’n-yan, de luz azul; Yoth, de luz vermelha; e N’kai, um mundo negro e sem qualquer luz. Foi de N’kai que proveio o hediondo Tsathoggua… o senhor sabe do que se trata: o ser divinizado, amorfo, mencionado nos Manuscritos pnacóticos, no Necronomicon e no ciclo de mitos comórios preservado pelo sumo-sacerdote atlante Klarkash-Ton.

— Entretanto, falaremos de tudo isso mais tarde. Já devem ser quatro ou cinco horas. Seria melhor o senhor tirar as coisas de sua bolsa, alimentar-se e depois voltar para conversarmos melhor.

Lentamente, virei-me e comecei a obedecer a meu anfitrião. Trouxe a valise, tirei dela os artigos desejados e os depositei na mesa. Finalmente, subi as escadas até a alcova que me havia sido designada. Tendo ainda fresca na lembrança aquela marca de garra impressa no pó da estrada, a fala sussurrada de Akeley havia-me afetado curiosamente; e as insinuações de familiaridade com aquele mundo desconhecido de vida fungosa — o tétrico Yuggoth — tinham provocado em mim calafrios, mais do que eu me dispunha a admitir. Eu estava tremendamente penalizado por Akeley, em virtude de sua enfermidade, mas era forçado a confessar que seu sussurro áspero despertava tanta repugnância quanto compaixão. Se ao menos ele não discorresse tanto sobre Yuggoth e seus aterradores segredos!

Meu aposento era extremamente simpático e acolhedor, sem o bafio de bolor e aquela inquietante sensação de vibração. E depois de deixar ali minha valise , desci outra vez, para falar com Akeley e tomar a refeição que ele havia preparado para mim. A sala de jantar ficava bem ao lado do estúdio, e percebi que a copa-cozinha, em forma de L, ficava mais adiante, na mesma direção. Na mesa esperava-me uma farta quantidade de sanduíches, bolos e queijos; uma garrafa térmica, ao lado de uma xícara e um pires, atestava que o anfitrião não se esquecera do café quente. Depois de uma lauta refeição, servi-me generosamente de café, mas senti que nesse detalhe minhas exigências de qualidade gastronômicas não haviam sido atendidas. A primeira colherada revelou um gosto desagradável, um pouco acre, de modo que não tomei mais. Durante toda a refeição, esqueci-me de Akeley, sentado silenciosamente na poltrona do cômodo ensombrecido ao lado. Em certo momento, fui lá, para convidá-lo a partilhar comigo o repasto, mas ele sussurrou que ainda não podia comer coisa alguma. Mais tarde, pouco antes de dormir, ele haveria de beber um pouco de leite maltado, e isso era tudo quanto deveria ingerir naquele dia.

Depois desse jantar, insisti em tirar a mesa e lavar os pratos na pia da cozinha, aproveitando para despejar o café que eu não havia conseguido tomar. Depois, voltando para o estúdio às escuras, puxei uma cadeira para o canto de meu anfitrião e preparei-me para conversar sobre qualquer coisa que ele desejasse. As cartas, as fotografias e a gravação ainda estavam sobre a larga mesa de centro, mas por ora não teríamos necessidade de recorrer àquelas coisas. Antes que se passasse muito tempo, eu me esquecera até do cheiro esquisito e das curiosas impressões de vibração.

Como já tive ocasião de dizer, havia coisas em algumas das cartas de Akeley (principalmente na segunda, a mais longa) que não me atrevo a repetir ou sequer formular por escrito. Essa hesitação vigora com mais intensidade em relação às coisas que ouvi, sussurradas, naquela noite, no quarto em trevas, entre as funestas montanhas solitárias. Sobre a extensão dos horrores cósmicos expostos por aquela voz rascante, nada posso sequer insinuar. No passado eu já tomara contacto com coisas hediondas, mas o que Akeley ficara sabendo desde seu pacto com os Alienígenas era quase excessivo para ser tolerado. Ainda então, eu me recusava terminantemente a acreditar no que ele afirmava sobre a constituição da infinitude suprema, da justaposição das dimensões e da assustadora posição de nosso universo de espaço e tempo na cadeia infindável de átomos cósmicos interligados, que constituem o supercosmos imediato de curvas, ângulos e organização eletrônica material e semimaterial.

Jamais esteve um homem são mais perigosamente perto dos arcanos do ser essencial… jamais esteve um cérebro organizado mais próximo da completa aniquilação no caos que transcende forma, força e simetria. Fiquei sabendo de onde Cthulhu veio originalmente e por que metade das grandes estrelas temporárias da história haviam explodido. Adivinhei, a partir de pistas que faziam até mesmo meu informante hesitar timidamente, o segredo por trás das Nuvens de Magalhães e das nebulosas globulares, assim como a negra verdade velada pela imemorial alegoria do Tao. Ficou claramente elucidada a natureza dos Doeis e foi-me comunicada a essência (conquanto não a fonte) dos Galgos de Tíndalos. A lenda de Yig, Pai das Serpentes, deixou de ser mera metáfora, e tive um sobressalto de asco quando ele me falou do monstruoso caos nuclear que reina além do espaço angulado que o Necronomicon havia compassivamente ocultado sob o nome de Azathoth. Foi chocante ver os mais tenebrosos pesadelos dos mitos secretos deslindados em termos concretos, cuja odiosidade gritante e mórbida excediam as mais atrevidas insinuações dos místicos da Antiguidade e do Medievo. Inelutavelmente, fui levado a acreditar que aqueles que pela primeira vez sussurraram aquelas blasfemas narrativas deviam ter-se avistado com os Alienígenas de Akeley e talvez ter visitado outros reinos cósmicos, tal como agora Akeley propunha-se a fazer.

Ouvi falar da Pedra Negra e do que ela implicava, sentindo-me contente por não a ter recebido. Meus palpites sobre aqueles hieróglifos tinham sido bastante acertados! No entanto, Akeley parecia agora reconciliado com todo o demoníaco sistema com que se defrontara; reconciliado e ansioso por sondar ainda mais profundamente o abismo monstruoso. Eu estava a imaginar com que seres ele haveria conversado desde sua última carta e se muitos deles seriam tão humanos quanto aquele primeiro emissário que ele havia mencionado. A tensão em meu cérebro tornava-se insuportável e pus-me a elaborar toda sorte de teorias delirantes sobre aquele curioso e persistente odor e aquelas insidiosas insinuações de vibração no cômodo escurecido.

A noite já caía, e ao me recordar do que Akeley me escrevera sobre aquelas primeiras noites, estremeci ao pensar em que não haveria luar. Tampouco gostava do modo como a casa da fazenda se aninhava no seio daquela colossal encosta que, coberta de florestas, levava ao topo inexplorado da montanha Escura. Com a permissão de Akeley, acendi um lampião a azeite, baixei a chama e coloquei-o sobre uma estante afastada, junto do fantasmagórico busto de Milton. Depois, entretanto, arrependi-me de o ter feito, pois a luz fazia com que o rosto tenso e hirto de meu anfitrião, assim como suas mãos exangues, parecessem horrivelmente anormais e cadavéricas. Ele parecia quase impossibilitado de se mover, ainda que eu o visse balançar a cabeça rigidamente de vez em quando. Depois do que ele dissera, eu mal podia imaginar que segredos maiores estaria guardando para o dia seguinte. Mas por fim vim a saber que sua viagem a Yuggoth e ainda mais além – e minha própria possível participação nela – seria o tema do outro dia. Akeley deve ter achado graça de meu sobressalto de horror ao me ser proposta uma viagem cósmica, pois sacudiu a cabeça violentamente quando demonstrei meu medo. Depois falou muito gentilmente a respeito do modo como os seres humanos poderiam efetuar (e já haviam efetua do com freqüência) o vôo aparentemente impossível através do vazio interestelar. Ao que parecia, a viagem não era feita realmente por corpos humanos intactos; a prodigiosa perícia cirúrgica, biológica, química e mecânica dos Alienígenas havia produzido um meio de transportarem cérebros humanos sem sua concomitante estrutura física.

Eles possuíam uma técnica inócua para extrair um cérebro e outra para manter vivo o resíduo orgânico. A massa cerebral, nua e compacta, era imergida então num fluido, ocasionalmente recompletado, dentro de um cilindro hermético de um metal minerado em Yuggoth, atravessado por alguns eletrodos que eram conectados cuidadosamente com elaborados instrumentos, capazes de duplicar as três faculdades vitais de visão, audição e fala. Transportar intactos pelo espaço os cilindros cerebrais era coisa fácil para os seres fungóides alados. Depois, em cada planeta dominado por sua civilização; encontravam grande quantidade de instrumentos ajustáveis, capazes de serem conectados aos cérebros encapsulados. Assim, depois de alguns poucos ajustes, essas inteligências deambulatórias ganhavam plena vida sensória e articulada — posto que incorpórea e mecânica — a cada etapa de suas jornadas através do contínuo espaço-tempo e mesmo além dele. Era tão simples quanto se levar de um local para outro uma gravação fonográfica e tocá-la onde quer que exista um fonógrafo da mesma marca. Com relação ao êxito da empresa, não podia haver dúvidas. Akeley não tinha medo. Aquilo já não tinha sido realizado à perfeição e repetidamente?

Pela primeira vez, uma das mãos inertes e debilitadas se levantou, apontando hirtamente para uma prateleira alta no outro lado do cômodo. Ali, muito bem dispostos em fileira, havia mais de uma dúzia de cilindros de um metal que eu nunca vira. Teriam esses cilindros cerca de um palmo e meio de altura e um pouco menos de diâmetro, com três curiosas tomadas, formando um triângulo isósceles, na superfície convexa frontal. Um deles estava conectado, por duas das tomadas, a um par de máquinas de aspecto singular que se viam mais atrás. Era excusado explicar-me sua finalidade, e estremeci, como se tomado de sezões. Vi então a mão apontar em direção a um recanto muito mais próximo, onde se comprimiam alguns instrumentos complicados, com fios e tomadas, alguns deles muito semelhantes aos dois dispositivos na prateleira, atrás dos cilindros.

— Há quatro tipos de instrumentos aqui, Wilmarth — sussurrou a voz. — Quatro tipos, três faculdades cada um… temos ao todo doze peças. Você vê que há quatro tipos diferentes de seres representados naqueles cilindros lá em cima. Três seres humanos, seis seres fungóides que são incapazes de viajar pelo espaço corporeamente, dois seres de Netuno (por Deus, que corpo esse tipo possui em seu próprio planeta!) e os restantes são entidades das cavernas centrais de uma estrela escura e interessantíssima, situada além da Galáxia. No posto principal, no interior do morro Redondo, de vez em quando se encontram mais cilindros e máquinas… cilindros de cérebros extracósmicos, com sentidos diferentes dos que conhecemos… aliados e exploradores dos espaços mais remotos, e máquinas especiais para dar a eles impressões e expressão, nas várias maneiras adequadas, ao mesmo tempo, a eles e à compreensão de diferentes tipos de ouvintes. O morro Redondo, como a maioria dos principais postos avançados dos seres nos vários universos, é um lugar muito cosmopolita. Naturalmente, somente os tipos mais comuns é que me foram emprestados, para experiências.

— Vamos… pegue as três máquinas que estou apontando e coloque-as na mesa. Aquela alta, com duas lentes na frente… a caixa com as válvulas eletrônicas e a caixa de ressonância… e agora aquela que tem um disco de metal em cima. Agora pegue o cilindro com um rótulo que diz “B-67”. Suba naquela cadeira Windsor para alcançá-lo. Pesado? Não importa! Verifique bem o número… B-67. Não perca tempo com aquele cilindro novo e reluzente ligado aos dois testadores… esse que está com o meu nome. Coloque o B-67 na mesa perto de onde estão as máquinas… o ponteiro do botão de todas as três máquinas deve estar virado para a extrema esquerda.

— Agora, ligue o fio da máquina da lente à tomada superior do cilindro… isso! Ligue a máquina que tem as válvulas à tomada do canto inferior esquerdo, e o dispositivo com o disco à tomada externa. Agora vire todos os botões das máquinas para a extrema direita… primeiro a da lente, depois a do disco e depois a das válvulas. Isso mesmo. Talvez convenha lhe dizer que isso é um ser humano… igual a qualquer um de nós. Amanhã vou deixar que experimente um pouco os outros.

Ainda hoje não sei porque obedeci àqueles sussurros tão servilmente, ou se julguei que Akeley estava louco ou são. Depois do que havia acontecido antes, eu deveria estar preparado para qualquer coisa; mas aquela pantomima mecânica assemelhava-se de tal maneira aos típicos delírios de inventores e cientistas loucos que feriu uma nota de dúvida que nem o palavrório antecedente havia despertado. O que aqueles sussurros implicavam estava além da possibilidade de credulidade… entretanto, não eram as outras coisas também absurdas e só menos inverossímeis porque impassíveis de prova concreta e tangível?

Enquanto meu cérebro rodopiava no meio desses casos, tomei consciência de uma mistura de arranhaduras e silvos que vinham de todas as três máquinas que haviam sido ligadas ao cilindro… sons que em breve cessaram quase completamente. O que estava para acontecer? Eu escutaria uma voz? E se isso acontecesse, que prova eu tinha de que não se tratava de algum receptor de rádio habilmente escondido e que transmitiria a voz de alguém? Até hoje não estou disposto a jurar que realmente ouvi uma voz ou que aquele fenômeno teve lugar diante de meus olhos. Mas, evidentemente, alguma coisa aconteceu.

Para ser claro e breve, a máquina com as válvulas e a caixa de ressonância começou a falar, e com uma precisão e inteligência tais que não havia como duvidar que a pessoa que falava estava presente e a nos observar. A voz era sonora, metálica e sem vida, e claramente mecânica em cada um dos detalhes de sua produção. Era incapaz de inflexões ou expressividade, e falava com precisão e deliberação mortíferas.

— Sr. Wilmarth — escutei — espero não assustá-lo. Sou um ser humano como o senhor, embora meu corpo esteja neste momento repousando em segurança e submetido a um tratamento vitalizante adequado, no interior do morro Redondo, mais ou menos a uma milha e meia a leste daqui. Eu próprio me encontro aqui com o senhor… meu cérebro está naquele cilindro e eu vejo, ouço e falo através destes vibradores eletrônicos. Daqui a uma semana vou atravessar o espaço, como já fiz várias vezes, e espero ter o prazer de contar com a companhia do Sr. Akeley. Gostaria de ter também a sua companhia, pois o conheço de vista e de reputação e venho seguindo atentamente sua correspondência com nosso amigo. Sou, naturalmente, um dos homens que se aliaram aos seres que se acham de visita a nosso planeta. Eu os conheci no Himalaia e os tenho ajudado em vários sentidos. Em troca, têm-me proporcionado experiências que poucos homens já tiveram.

— Compreende o que significa para mim ter estado em trinta e sete diferentes corpos celestes, entre planetas, estrelas negras e objetos menos definíveis, inclusive oito fora de nossa Galáxia e dois além do universo curvo do espaço e do tempo? Nada disso me causou o menor mal. Meu cérebro foi removido de meu corpo através de fissões tão hábeis que seria grosseiro chamar a operação de cirurgia. Os seres visitantes dominam métodos que tornam essas extrações fáceis e quase normais… e o corpo de uma pessoa nunca envelhece quando o cérebro está fora dele. O cérebro, aliás, é praticamente imortal com suas faculdades mecânicas e uma nutrição simples, proporcionada por trocas periódicas do líquido preservador.

— Em suma, espero de todo coração que o senhor resolva vir comigo e com o Sr. Akeley. Os visitantes estão ansiosos por conhecer homens inteligentes como o senhor e mostrar-lhes os imensos abismos que a maioria de nós teve de imaginar apenas em sonhos, matizados de imaginosa ignorância. A princípio, eles poderão parecer estranhos, mas sei que o senhor está acima dessas ninharias. Creio que o Sr. Noyes irá também… o homem que, sem dúvida, trouxe o senhor até aqui, de carro. Faz anos que ele é um de nós… creio que o senhor reconheceu a voz dele como uma das que estão na gravação que o Sr. Akeley lhe remeteu.

Diante de meu sobressalto, a voz se deteve por um momento, antes de concluir.

— Sr. Wilmarth, deixo a decisão a seu cargo. Gostaria apenas de acrescentar que um homem com seu amor pelas coisas inusitadas e pelo folclore jamais deveria perder uma oportunidade dessas. Não há nada a temer. Todas as transições são indolores e há muito o que desfrutar num estado inteiramente mecanizado de sensações. Quando os eletrodos são desligados, a pessoa simplesmente mergulha num sono de sonhos sobremaneira vívidos e fantásticos.

— Agora, se o senhor não se importar, podemos adiar para amanhã nossa sessão. Boa noite… vire todos os botões novamente para a esquerda. Não se importe com a ordem exata… ainda que seja melhor deixar a máquina com a lente para o fim. Boa noite, Sr. Akeley… trate bem nosso hóspede! Está pronto para virar os botões?

Isto foi tudo. Obedeci mecanicamente e desliguei todos os botões, ainda que aturdido e imerso em dúvidas com relação a tudo que havia ocorrido. Minha cabeça ainda rodopiava quando ouvi a voz sussurrante de Akeley dizer que eu podia deixar todos os aparelhos sobre a mesa, tal como estavam. Ele não tentou nenhum comentário sobre o que havia acontecido e na verdade não havia palavras que pudessem transmitir muita coisa a minhas faculdades entorpecidas. Ouvi Akeley dizer que eu podia levar o lampião para meu quarto, e deduzi que ele desejava descansar sozinho no escuro. Certamente ele precisava de repouso, pois naquele dia falara o suficiente para exaurir até mesmo um homem vigoroso. Ainda estupefato, desejei boa-noite a meu hospedeiro e subi as escadas com a lâmpada, muito embora trouxesse comigo uma excelente lanterna elétrica.

Fiquei satisfeito por me afastar daquele estúdio, onde persistiam o cheiro estranho e vagas sugestões de vibração; mesmo assim, não deixei de sentir uma medonha impressão de perigo e anormalidade cósmica ao pensar no lugar onde me encontrava e nas forças que eu estava conhecendo. A região erma e inóspita, a montanha negra e misteriosamente arborizada que subia verticalmente bem perto da casa, a marca na estrada, aquele homem doente e imóvel que sussurrava nas trevas, os cilindros e as máquinas demoníacas, e acima de tudo os convites à estranha cirurgia e a jornadas ainda mais estranhas – tudo isso, tão novo e surgindo em seqüência tão repentina, irrompeu sobre mim com uma força cumulativa que minou minha força de vontade e quase destruiu minha resistência física.

Descobrir que Noyes, meu guia, fora o celebrante humano naquele monstruoso ritual sabático registrado na gravação constituíra um choque especial, ainda que anteriormente eu já houvesse percebido uma vaga e repelente familiaridade em sua voz. Outro choque especial decorria de minha própria atitude em relação a meu anfitrião, sempre que eu me detinha a analisá-la; pois embora eu tivesse simpatizado muito com Akeley, e instintivamente, pelo que ele me escrevia, sentia agora que ele provocava em mim uma nítida repugnância. Sua moléstia deveria ter-me despertado compaixão; no entanto, causava-me certa espécie de calafrios. Ele se mostrava rígido, inerte e cadavérico… e aqueles sussurros incessantes eram tão odientos e pouco humanos!

Ocorreu-me que seu sussurro era diferente de qualquer outro que eu já tivesse escutado; que, a despeito da curiosa imobilidade dos lábios, cobertos pêlos bigodes, seus murmúrios tinham uma força latente e um poder de persuasão extraordinários para a falta de ar de um asmático. Eu tinha sido capaz de entender o que ele dizia mesmo quando me encontrava do outro lado da sala, e por uma ou duas vezes eu tivera a impressão de que os sons, fracos mas penetrantes, representavam menos debilidade do que deliberada repressão… por algum motivo que eu não era capaz de imaginar. Desde o começo eu percebera algo de inquietante no timbre. Agora, tentando refletir sobre a questão, julgava poder atribuir essa impressão a uma espécie de familiaridade subconsciente, semelhante àquela que fizera a voz de Noyes parecer tão nebulosamente pressaga. Mas onde ou quando eu havia encontrado a coisa que ela me recordava, era algo que eu não saberia determinar.

Uma coisa era certa: eu não era capaz de passar outra noite ali. Meu ardor científico havia desaparecido diante do medo e da repulsa, e tudo que eu sentia agora era o desejo de evadir-me àquela rede de morbidez e revelações antinaturais. Eu já sabia o suficiente. Realmente, devia ser verdade que estranhas vinculações cósmicas existem… mas tais coisas decerto não são da alçada de seres humanos normais.

Influências ímpias pareciam cercar-me e pressionar sufocantemente os meus sentidos. Dormir, concluí, estava fora de cogitação. Por isso, apenas apaguei o lampião e me atirei na cama, inteiramente vestido. Sem dúvida, meu receio era absurdo, mas me mantive pronto para qualquer emergência desconhecida. Agarrei com a mão direita o revólver que havia trazido comigo e segurei a lanterna com a esquerda. Nenhum som vinha lá debaixo e eu podia imaginar que meu anfitrião estivesse sentado ali, no escuro, em sua cadavérica rigidez.

De algum ponto chegava a mim o tique-taque de um relógio e eu me sentia vagamente grato pela normalidade do som. Aquilo, entretanto, me lembrou outra coisa que me inquietava: a total ausência de vida animal. Com certeza não havia animais na fazenda, e agora eu percebia que faltavam até mesmo os habituais ruídos noturnos de bichos silvestres. Com exceção do murmúrio sinistro de distantes regatos invisíveis, aquela quietude era anômala – interplanetária – e eu me punha a imaginar que praga intangível e astronômica poderia estar pairando sobre a região. Lembrei-me do que diziam as velhas lendas: cães e outros animais haviam sempre odiado os Alienígenas. O que poderiam significar aquelas marcas na estrada?

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