Conto: Como Gene Kelly

Como Gene Kelly

Marcos José Vieira Curvello

O homem caminhava vagarosamente. Unicamente o som dos solados grossos de seus sapatos de couro se chocando contra os paralelepípedos, úmidos devido à ligeira chuva de verão que caíra forte quase uma hora atrás, ecoava madrugada adentro. Gostava daquele barulho. Pensava que poderia ter sido como Gene Kelly. Mas não naquela noite. Imaginava se realmente havia feito aquilo. Ou se havia apenas imaginado, desejado. E ainda que a moral lhe censurasse, parecia certo, contudo. Ao menos adequado. Merecia, por tê-lo humilhado com um rapaz vinte anos mais novo. Muito embora inventariasse suas faltas com precisão advocatícia, não lhe era claro o motivo que os havia levado até aquele ponto sem retorno. Cada um dos dias por ele vividos nos últimos trinta e três anos foram dedicados a dar a ela, pois não podia ter filhos, a vida que jamais teve. Quando anunciou que queria se casar, disseram que não o fizesse com uma mulher tão mais jovem, mas não pode pensar em nada diferente quando a viu buscar um amigo de trabalho, seu pai, na porta da fábrica. Foi até o companheiro, pediu a mão da moça e prometeu um futuro glorioso. E deu, ao custo de muito suor, deu. Abdicara de quase tudo em prol desse sonho e hoje, era dono daquela mesma usina. De fato, a transformara em parte de uma multinacional respeitável.

Murmurando baixo, divagava, negava, denegava. Sua mente alçava vôos e singrava espaço e tempo, como a mais fantástica máquina da ficção, pairando sobre eventos de um passado distante. Fragmentos de uma felicidade pesada em ouro, estilhaços de uma alegria medida em horas extras. Porém, não conseguia lembrar-se de detalhes daquilo que ocorrera havia só um punhado de minutos. Sabia que houvera briga, troca de insultos. Jogara, literalmente, na face da esposa fotos dela com o belo amante belga, tiradas por um “detetive particular” – como ostentava na porta de seu escritório imundo e minúsculo – obeso e com ares de espertalhão na porta de um sobrado suburbano. Era, de certo, tão somente um fuxiqueiro que chafurdava na degradação e desespero alheios. No entanto, prometera-lhe a verdade. E então, essa era a única oferta que não recusaria. Ante a confirmação da infidelidade, sua mente, tão aguçada para as coisas do empresariado, obstruiu-se, retraiu-se e murchou-se. Apequenou-se quase ao ponto da inexistência, incendiando-se em fúria, como pólvora que se queima. Ejetara a racionalidade em uma fração de segundos, qual pistola que descarta um cartucho deflagrado, ainda fumegante. Sua percepção tornara-se tão embaciada quanto vela ao vento, lampião descamisado. Todavia, vagando, sentia-se em paz com as memórias domadas em devaneios da dúvida e o corpo entorpecido pelo ópio sintetizado no esvaecer da adrenalina.

A passagem repentina de viaturas da polícia, sirenes gritando, estridentes, em tom acusatório, atirou-lhe de volta à realidade em um solavanco que trouxe dor tão aguda que lhe parecia reverberar pela carne, ondular ao sabor do som. Tinha certeza que iriam para sua casa. Agradeceu a cegueira afobada dos policiais, assim como o manto tão providencial que, com a noite sem lua, lhe caíra sobre o alinhado terno negro italiano quando percebeu as manchas nas mãos. Nas mãos, no torso, nos sapatos alemães, no rosto. A camisa, antes impecavelmente alva, tornara-se de um carmim empapado. Tão rubras quanto as rosas e rubis de que sua ora amada, em diferentes épocas, tanto gostara. O odor ferruginoso invadia-lhe zombeteiramente as narinas, como a enunciar uma verdade que negara até o momento.

Começou, assim, a lembrar-se. Dos argumentos pouco convincentes, das acusações de ausência, da necessidade de ser mãe, do vexame de não poder supri-la, da dor ao ver-se comparado a um rapaz que poderia muito bem ser seu filho não nascido. Recordou-se da faca que descansava em um cepo na cozinha, cenário do último desacerto que teria com a esposa. Lembrou-se de ter pegado o instrumento longo e afiado. Ouviu, novamente, o sibilo da lâmina sendo sacada e impulsionada contra o nada, em direção a algo. A briga, os gritos. Rolaram pelo chão de ladrilhos pretos e brancos. Uma, duas estocadas. Vermelho. Um vermelho bonito. Lembrou-lhe de seu primeiro carro, um Thunderbird 72. Era com ele que ia buscá-la em seus poucos encontros de namorados. Foram felizes. Sim. Foram felizes enquanto durou.

Queria ser como Gene Kelly, cantar, dançar e sapatear sobre as poças d’água. Mas não naquela noite, porque naquela noite, não era a chuva que empoçava nas calçadas e inundava a rua. Era sangue. Seu sangue.

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8 Comentários para “Conto: Como Gene Kelly”

  1. Diego Flyfish disse:

    Nossa, cara. Que orgasmo literário! Muito foda… Me lembrou os textos narrados de Max Payne. Hehehe

    “…rosas e rubis de que sua ora amada, em diferentes épocas, tanto gostara.”

    Muito bom.. Me parececeu um parâmetro entre inocência e corrupção. É por isso que nunca dou joias pra minha namorada, só flores! Hehehe

    Parabéns, Marcos.

  2. Manu Agra disse:

    Nossa, que conto mais triste! ;S

    Fui procurar na wikipédia quem era esse Gene Kelly, ele foi “O Cara” na época dele. Me ligava no filme que ele fez (Cantando na chuva), mas não sabia quem ele era (se bem que o nome não era estranho).

    Parabéns Marcos, muito boa a história.

  3. Gabriel teixiera disse:

    caraca, aiken tu é macabro…

    q conto mais triste, e ainda com uma narrativa bem legal.

    Queria ser como Gene Kelly, cantar, dançar e sapatear sobre as poças d’água. Mas não naquela noite, porque naquela noite, não era a chuva que empoçava nas calçadas e inundava a rua. Era sangue. Seu sangue.

    essa marcou

  4. Aiken Frost disse:

    É, o Marcos manda bem pra caramba. Semana que vem tem mais um conto dele que é fenomenal.

    Pena que ele não tem muito tempo de escrever. Qualquer dia a gente chama ele pro Gavestática, hehehe.

  5. BIBI disse:

    vixe, paguei mico entao rs…

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