O Chamado de Cthulhu – Parte 3

cc3Salve, camaradas! Terça-feira é dia de conto, então hoje eu trago pra vocês não só a parte final de O Chamado de Cthulhu, como também uma hilária paródia escrita por um de nossos colaboradores, para aliviar um pouco os ânimos após tanto terror cósmico de Lovecraft… Spider Damn 3 é o título deste texto, escrito por Goldfield, camarada que já é faixa preta na arte das fanfics. Vejam no post abaixo!

Na terceira e última parte de O Chamado de Cthulhu, Thurston extrapola o conhecimento que adquiriu com os papeis de seu tio sobre o culto de Cthulhu e faz uma descoberta ainda mais apavorante…

O Chamado de Cthulhu

H. P. Lovecraft

III. A LOUCURA QUE VEIO DO MAR

Se aprouver aos céus conceder-me algum dia uma bênção, pedirei que seja o esquecimento total dos resultados do mero acaso que fixou meus olhos num certo pedaço perdido de papel que forrava uma prateleira. Não era algo com que eu normalmente tropeçaria no curso da minha rotina diária, pois se tratava de um velho número de um jornal australiano, o Sydney Bulletin, de 18 de abril de 1925. A notícia escapara até mesmo ao escritório de recortes que, na época de sua publicação, coletava avidamente material para a pesquisa do meu tio.

Eu havia praticamente deixado de lado minhas investigações sobre o que o professor Angell chamava “Culto de Cthulhu”, e estava visitando um letrado amigo em Paterson, Nova Jersey, curador de um museu local e renomado mineralogista. Um dia, examinando amostras de reserva colocadas desordenadamente sobre as prateleiras de uma sala nos fundos do museu, meu olhar foi atraído por uma estranha gravura num dos velhos jornais espalhados debaixo das pedras. Era o exemplar do Sydney Bulletin a que me referi, pois meu amigo tinha amplas ligações em todos os países imagináveis; e a figura era uma litografia de uma horrorosa estatueta de pedra quase idêntica à que Legrasse encontrara no pântano.

Ansiosamente afastando da folha de jornal os preciosos espécimes minerais, estudei a notícia detalhadamente, mas fiquei desapontado ao ver que não era muito extensa. O que sugeria, no entanto, era de imensa importância para minha investigação algo desalentada, e rasguei cuidadosamente o recorte a fim de empreender ação imediata. Dizia o seguinte:

NAVIO ABANDONADO ENCONTRADO NO MAR

Vigilant chega rebocando iate neozelandês armado e avariado. Encontrados a bordo um sobrevivente e um morto. Estória de batalha desesperada e mortes em alto-mar. Marinheiro salvo recusa-se a dar detalhes da estranha experiência.  Misterioso ídolo achado em seu poder. Será aberto Inquérito.

O cargueiro da Morrison Co., Vigilant, proveniente de Valparaíso, atracou esta manhã no porto de Darling, trazendo à reboque o avariado e inutilizado, mas fortemente armado, iate a vapor Alert, com matrícula de Dunedin, N. Z., que fora avistado no dia 12 de abril na latitude sul 34° 21′, longitude oeste 152° 17′, com um homem vivo e um morto a bordo.

O Vigilant deixou Valparaíso a 25 de março e, no dia 2 de abril, sua rota foi consideravelmente desviada para sul por fortíssimas tempestades e ondas monstruosas. Em 12 de abril foi avistado o barco à deriva, e embora aparentemente abandonado pela tripulação, foram encontrados a bordo um sobrevivente em estado de semi-delírio e um homem com evidências de estar morto há mais de uma semana.

O sobrevivente agarrava um horrível ídolo de pedra de origem desconhecida e cerca de um pé de altura, a respeito de cuja natureza as autoridades da Universidade de Sydney, da Royal Society e do Museu de College Street confessaram a mais absoluta ignorância, e que o sobrevivente afirma ter encontrado na cabina do iate, num pequeno relicário esculpido, de formato comum.

Após recuperar a consciência, esse homem narrou uma estória excessivamente estranha de pirataria e chacina. Seu nome é Gustaf Johansen, norueguês de alguma instrução, e servira como segundo-oficial da escuna Emma, de Auckland, que zarpou de Callao a 20 de fevereiro, com tripulação de onze homens.

A Emma, disse ele, foi retardada e largamente desviada de seu curso na direção sul pela grande tempestade de 1° de março; no dia 22 desse mês, na latitude sul 49° 51′ e longitude oeste 128° 34′, encontrou o Alert, tripulado por um esquisito e mal-encarado grupo de canacas e mestiços. Recebendo ordem peremptória de voltar, o capitão Collins recusou-se, ao que o estranho grupo abriu fogo violentamente e sem aviso sobre a escuna, com uma bateria peculiarmente pesada de canhões de bronze que faziam parte do equipamento do iate.

Os homens da Emma reagiram, prosseguiu o sobrevivente, e embora a escuna começasse a afundar devido a tiros que a atingiram abaixo da linha de flutuação, conseguiram abordar a embarcação inimiga e lutar corpo a corpo com os selvagens sobre o convés do iate, sendo forçados a matá-los todos, o número destes sendo ligeiramente maior, por causa de seu modo feroz e desesperado, ainda que despreparado, de lutar.

Três homens da Emma, incluindo o capitão Collins e o primeiro- oficial Green, foram mortos, e os oito restantes, sob comando do segundo-oficial Johansen, prosseguiram viagem no iate capturado, seguindo na direção original a fim de constatar se havia alguma razão para a ordem de retornar que tinham recebido.

No dia seguinte, ao que parece, desembarcaram numa pequena ilha, embora não conste a existência de ilha alguma naquela parte do oceano. Seis homens morreram em terra, ainda que Johansen seja estranhamente reticente sobre essa parte da estória, limitando-se a afirmar que caíram num abismo rochoso.

Parece que mais tarde ele e um companheiro voltaram ao iate e tentaram prosseguir viagem, mas foram atingidos pela tempestade do dia 2 de abril.

A partir desse dia até seu resgate no dia 12, o homem se lembra de pouca coisa, e não se recorda sequer de quando William Briden, seu companheiro, morreu. A morte de Briden não revela causa aparente e provavelmente deveu-se a choque emocional ou exposição contínua às intempéries.

Notícias recebidas de Dunedin informam que o Alert era bem conhecido por lá como navegador de cabotagem e que gozava de má reputação nos meios marítimos. Era de propriedade de um curioso grupo de mestiços cujas freqüentes reuniões e viagens noturnas aos bosques despertavam considerável curiosidade; zarpara com grande pressa logo depois da tempestade e dos tremores de terra de 1° de março.

Nosso correspondente em Auckland atribui à Emma e sua tripulação uma reputação excelente, e Johansen é descrito como homem sóbrio e valoroso.

Amanhã o almirantado abrirá inquérito sobre o incidente, no qual serão feitos todos os esforços para induzir Johansen a falar mais do que até o momento.

Isso era tudo, juntamente com a foto da imagem infernal; mas que sucessão de idéias desencadeou na minha mente! Aqui estavam novos tesouros de informação sobre o Culto de Cthulhu, bem como evidências de que possuía estranhos interesses no mar tanto quanto em terra. Que motivo levara a tripulação de mestiços a ordenar o retorno da Emma enquanto navegavam com aquele medonho ídolo? Qual era a ilha desconhecida onde seis membros da tripulação da Emma haviam morrido e sobre a qual o imediato Johansen guardava tanto segredo? O que haveria descoberto a investigação do almirantado e o que se saberia em Dunedin sobre aquele culto nefasto? E o mais surpreendente de tudo: que profunda e sobrenatural ligação de datas era essa que dava um significado maligno e agora inegável aos vários episódios tão cuidadosamente anotados por meu tio?

A 1° de março (nosso 28 de fevereiro, segundo a hora do meridiano de Greenwich) haviam ocorrido o terremoto e a tempestade. De Dunedin o Alert e sua revoltante tripulação haviam zarpado ansiosamente, como se atendessem a um imperioso chamado, enquanto do outro lado da terra poetas e artistas haviam começado a sonhar com uma estranha e lodosa cidade ciclópica, e um jovem escultor moldara durante o sono a forma do temível Cthulhu. A 23 de março a tripulação da Emma desembarcava numa ilha desconhecida, deixando ali seis mortos; e na mesma data os sonhos de homens sensíveis assumiam grande nitidez e se ensombreciam com o pavor da perseguição maligna de um monstro gigantesco, ao passo que um arquiteto enlouquecia e um escultor mergulhava repentinamente em total delírio! E o que dizer daquela tempestade de 2 de abril – data em que cessaram todos os sonhos da cidade lodosa e Wilcox emergiu incólume do cativeiro de sua estranha febre? O que dizer de tudo isso e das alusões do velho Castro sobre os Antigos, submersos filhos das estrelas cujo reinado estava próximo, do fervoroso culto que lhes era dedicado e do domínio que tenham sobre os sonhos? Estaria eu cambaleando à beira de horrores cósmicos além da capacidade humana de suportá-los? Se assim fosse, deveriam ser horrores apenas da mente, pois de alguma forma o dia 2 de abril pusera fim a qualquer ameaça monstruosa que iniciara seu assédio contra a alma da humanidade.

Naquela noite, após um dia inteiro de telegramas apressados e tomada de providências, despedi-me do meu anfitrião e embarquei num trem para São Francisco. Em menos de um mês estava em Dunedin, onde, contudo, descobri que pouco se sabia acerca dos estranhos membros do culto que haviam freqüentado as velhas tavernas do cais. A ralé do porto era comum demais para fazer jus a qualquer menção especial, embora se falasse vagamente sobre uma excursão terra adentro que aqueles mestiços haviam feito, e durante a qual tênues batidas de tambor e labaredas vermelhas nas colinas distantes tinham-se feito notar.

Em Auckland soube que Johansen havia retornado com os cabelos loiros totalmente brancos após um interrogatório superficial e inconcludente em Sydney, e que depois vendera sua pequena casa na Rua Oeste e zarpara com a esposa para seu antigo lar em Oslo. Nem aos seus amigos quis contar sobre a sua eletrizante experiência mais do que contara aos oficiais do almirantado, e o máximo que puderam fazer foi dar-me o endereço dele em Oslo.

Depois disso fui a Sydney e conversei sem proveito algum com marinheiros e integrantes do tribunal marítimo. Vi o Alert, agora vendido e sendo usado como cargueiro no Cais Circular, em Sydney Cove, mas nada ganhei com a visita à neutra embarcação. A imagem agachada, com sua cabeça de polvo, corpo de dragão, asas escamosas e pedestal coberto de hieróglifos era conservada no Museu de Hyde Park, e eu a estudei detidamente, constatando ser obra de rematada e artística malignidade, dotada do mesmo mistério profundo, assustadora antiguidade e estranheza alienígena de material que eu observara no espécime menor de Legrasse. O curador me contou que os geólogos consideravam-na um monstruoso enigma, pois juravam não haver no mundo rocha igual àquela. Então me lembrei, com um calafrio, do que o velho Castro dissera a Legrasse sobre os primordiais Grandes: “Tinham vindo das estrelas, trazendo consigo Suas imagens”.

Abalado por uma revolução mental como nunca experimentara antes, resolvi visitar o imediato Johansen em Oslo. Embarcando rumo a Londres, mal cheguei lá e tomei imediatamente um navio para a capital norueguesa, onde desembarquei em um dia de outono nos bem cuidados cais à sombra do Egeberg.

O endereço de Johansen, segundo apurei, ficava na Cidade Velha do rei Harold Haardrada, o bairro que manteve vivo o nome de Oslo durante os séculos em que a capital mascarou-se sob o nome de “Cristiânia”. Fiz o breve trajeto de táxi, e foi com o coração palpitante que bati à porta de um antigo e belo edifício com fachada de estuque. Atendeu-me uma mulher de rosto triste vestida de preto, e a decepção se abateu sobre mim quando ela me informou, num inglês trôpego, que Gustaf Johansen havia morrido.

Ele não sobrevivera muito tempo após o seu regresso, contou-me sua viúva, pois os acontecimentos no mar em 1925 haviam-no alquebrado. Johansen não contara à esposa mais do que contara ao público, porém deixara um longo manuscrito – sobre “assuntos técnicos”, segundo disse – escrito em inglês, com o propósito evidente de salvaguardá-la do perigo de uma leitura casual. Durante um passeio por uma viela estreita próxima às docas de Gothenburg, fora derrubado por um pesado fardo de jornais caído da janela de um sótão. Dois marinheiros de Lascar imediatamente ajudaram-no a levantar-se, mas antes que a ambulância chegasse, ele já estava morto. Os médicos não encontraram causa específica para o óbito, atribuindo-o a problemas cardíacos e constituição debilitada.

Senti então remoer-me as entranhas aquele obscuro terror que nunca mais me deixará até que eu também venha a repousar, “acidentalmente” ou de outra forma. Tendo persuadido a viúva de que minha ligação com os “assuntos técnicos” de seu marido davam-me direito ao manuscrito, levei o documento comigo e comecei a lê-lo no navio de volta a Londres.

A redação era simples e sem elegância de estilo – tentativa de marinheiro ingênuo de compor um diário a posterióri – e procurava reconstituir, dia a dia, aquela última e fatídica viagem. Não há por que transcrevê-lo na íntegra com toda a sua ilegibilidade e redundâncias, mas narrarei o essencial do seu conteúdo para mostrar por que o barulho da água contra o casco do navio tornou-se tão insuportável para mim que tampei meus ouvidos com algodão.

Johansen, graças a Deus, não sabia de tudo, mesmo tendo visto a cidade e a Coisa, mas nunca voltarei a dormir calmamente de novo ao pensar nos horrores que espreitam incessantemente a vida no tempo e no espaço, e naquelas ímpias blasfêmias oriundas de imemoriais estrelas que sonham nas profundezas do mar, conhecidas e adoradas por um culto de pesadelo pronto e ansioso por soltá-las sobre o mundo assim que outro terremoto traga de novo à tona sua monstruosa cidade de pedra.

A viagem de Johansen havia começado exatamente como ele contou ao almirantado. A escuna Emma, com lastro, deixara Auckland a 20 de fevereiro, e sentira toda a força da tempestade causada pelo terremoto que deve ter feito emergir os horrores que preencheram os sonhos de tantos homens. Recuperado o controle da embarcação, esta prosseguia normalmente quando foi abordada pelo Alert a 22 de março, e pude sentir a tristeza do imediato ao descrever o bombardeio e afundamento do seu barco. Dos satanistas trigueiros do Alert ele fala com significativo horror. Havia neles algo de peculiarmente abominável que fazia com que a sua destruição parecesse quase um dever, e Johansen demonstra ingênua surpresa frente à acusação de desumanidade levantada contra o seu grupo durante os trabalhos da corte de inquérito. Então, levados adiante pela curiosidade no iate capturado, sob o comando de Johansen, os homens avistaram uma enorme coluna de pedra que se projetava fora do mar, e na latitude sul 47° 9′ e longitude oeste 126° 43′, deram com um litoral de lama, lodo e alvenaria ciclópica coberta de musgo que não podia ser outra coisa senão a substância tangível do supremo terror do planeta – a cadavérica cidade-pesadelo de R’lyeh, construída há incontáveis eras antes da História pelos gigantescos e nefastos vultos procedentes das estrelas sem luz. Ali jaziam o grande Cthulhu e suas hordas, ocultos em verdes criptas lodosas de onde finalmente, após ciclos incalculáveis, emitiam os pensamentos que infundem medo nos sonhos dos sensíveis e conclamam imperiosamente os fiéis a uma peregrinação de libertação e restauração. Johansen nada suspeitava sobre isso, mas Deus sabe que ele logo veria o bastante!

Suponho que apenas o cume de uma montanha, a revoltante cidadela coroada por um monólito, onde estava sepultado o grande Cthulhu, emergiu verdadeiramente das águas. Quando penso na extensão de tudo o que pode estar à espreita lá embaixo, quase tenho vontade de me matar de uma vez. Johansen e seus homens estavam boquiabertos perante a cósmica majestade daquela gotejante Babilônia de demônios ancestrais, e devem ter adivinhado, sem maior orientação, que não se tratava de nada proveniente deste ou de qualquer planeta são. Perplexo temor diante do incrível tamanho dos blocos de pedra esverdeados, da estonteante altura do grande monólito esculpido e da assombrosa identidade entre as colossais estátuas e baixos-relevos e a esdrúxula imagem encontrada no relicário do Alert, é flagrante em cada linha da assustada descrição do imediato.

Sem ter qualquer noção da escola artística a que se dá o nome de futurismo, Johansen chegou a algo muito próximo quando falou sobre a cidade; pois, ao invés de descrever qualquer estrutura ou edifício definidos, ele se refere apenas às amplas impressões de vastos ângulos e superfícies de pedra grandes demais para pertencer a qualquer coisa correta ou apropriada nesta terra, e ímpias com aquelas horríveis imagens e hieróglifos. Menciono a alusão dele a ângulos porque sugere algo que Wilcox me dissera sobre seus arrepiantes sonhos; ele havia dito que a geometria do local do sonho era anormal, não-euclidiana, e perturbadoramente repleta de esferas e dimensões alheias às nossas. Agora um marujo iletrado sentia a mesma coisa encarando a terrível realidade.

Johansen e seus homens desembarcaram numa lamacenta encosta daquela monstruosa acrópole, e galgaram com dificuldade os titânicos blocos escorregadios que não poderiam ser uma escada para mortais. No céu, o próprio sol parecia distorcido quando visto através do miasma polarizador que subia daquela perversão encharcada de mar, e uma serpenteante ameaça e suspense pareciam espreitar de soslaio naqueles insanamente ilusórios ângulos de rocha talhada, onde um segundo olhar mostrava concavidade após o primeiro ter mostrado convexidade.

Algo muito próximo ao pavor já sobreviera a todos os exploradores antes que coisa mais definida do que pedra, lodo e algas fosse vista. Cada um deles teria fugido se não temesse a zombaria dos demais, e foi com entusiasmo mínimo que procuraram – em vão, como se veria – alguma pequena lembrança para levar consigo.

Foi Rodrigues, o português, que galgou o pé do monólito e gritou o que havia encontrado. Os demais o seguiram e olharam cheios de curiosidade a imensa porta esculpida com o já familiar baixo relevo da lula-dragão. Segundo Johansen, era como uma enorme porta de celeiro; e todos julgaram ser uma porta devido ao dintel, umbral e batente ornamentados em volta, embora não conseguissem determinar se era plana como um alçapão ou oblíqua como uma porta externa de porão. Como Wilcox diria, a geometria daquele lugar era toda errada. Não se podia ter certeza de que o mar e a terra fossem horizontais, daí a posição relativa de tudo o mais parecer fantasmagoricamente variável.

Briden empurrou a pedra em diversos lugares, sem resultado. Em seguida Donovan tateou delicadamente as beiradas, pressionando cada ponto em separado. Escalou interminavelmente a grotesca cornija de pedra – isto é, diríamos “escalar” se a coisa não fosse mesmo horizontal – enquanto os homens se perguntavam, atônitos, corno alguma porta no universo poderia ser tão vasta. Então, muito devagar e suavemente, o painel de meio hectare de extensão pôs-se a ceder para dentro na parte de cima, ao que puderam constatar que estava equilibrada.

Donovan deslizou ou de alguma forma propulsou-se para baixo ou ao longo do batente e veio juntar-se aos companheiros, e todos assistiram à estranha recessão do portal monstruosamente esculpido. Naquela fantasia de distorção prismática, ele se movia anomalamente em sentido diagonal, subvertendo todas as regras da matéria e da perspectiva.

A abertura era negra, de uma escuridão quase palpável. Aquela tenebrosidade tinha, com efeito, uma qualidade positiva, pois escurecia partes das paredes internas que deveriam estar claras, e na verdade se evolava como fumaça de seu imemorial aprisionamento, visivelmente eclipsando o sol à medida que se esquivava pelo céu encolhido e convexo com esvoaçantes asas membranosas. O fedor que subiu das recém-abertas profundezas era insuportável, e logo depois Hawkins, que tinha ouvido apurado, julgou captar um asqueroso chapinhar vindo lá de baixo. Todos ficaram atentos, e continuavam atentos quando Aquilo assomou babosamente à vista e, às apalpadelas, espremeu Sua gelatinosa imensidão verde através da passagem negra para fora, ganhando o ar contaminado daquela peçonhenta cidade de loucura.

A caligrafia do pobre Johansen quase cedeu ao escrever essa parte. Dos seis homens que não voltaram ao navio, ele acha que dois morreram de puro pavor naquele instante amaldiçoado. A Coisa não pode ser descrita – não existem palavras capazes de expressar tais abismos de loucura estridente e imemorial, tais contradições alienígenas de toda matéria, força e harmonia cósmica. Uma montanha caminhava, ou cambaleava! Deus! Não admira que do outro lado da terra um grande arquiteto enlouquecesse e o pobre Wilcox delirasse de febre naquele instante telepático! A Criatura dos ídolos, o verde e pegajoso rebento das estrelas, despertara para reclamar o que era seu. As estrelas estavam novamente alinhadas, e o que um culto milenar falhara em fazer por fé, um bando de marinheiros inocentes fizera por acaso. Após trilhões de anos, o grande Cthulhu estava solto mais uma vez, e ávido de prazer.

Três homens foram varridos pelas flácidas garras antes que alguém pudesse se voltar para fugir. Que descansem em paz, se é que há algum descanso no universo. Foram eles Donovan, Guerrera e Angstrom. Parker escorregou enquanto os outros três disparavam freneticamente sobre panoramas intermináveis de rocha esverdeada rumo ao bote, e Johansen jura que ele foi tragado por um ângulo de alvenaria que não devia estar lá, um ângulo que, sendo agudo, comportava-se como se fosse obtuso. De modo que somente Briden e Johansen alcançaram o bote, e remaram desesperadamente para o Alert enquanto a montanhosa monstruosidade descia desajeitadamente pelas pedras limosas e hesitava, cambaleante, à beira d’água.

O vapor continuava a sair do iate a despeito da saída de todos os homens para a praia, portanto bastou alguns momentos de febril corre-corre entre rodas e motores para fazer o Alert partir. Lentamente, em meio aos horrores distorcidos daquele indescritível e infernal cenário, o iate começou a singrar as águas mortíferas, enquanto sobre as pedras lavradas daquela praia sepulcral que não pertencia a este planeta, a Coisa titânica vinda das estrelas espumava e vozeava como Polifemo praguejando contra o navio de Odisseu em fuga. Então, mais ousado que o lendário ciclope, o grande Cthulhu deslizou oleosamente para dentro d’água e começou a perseguir o iate, erguendo ondas com suas braçadas de potência cósmica. Briden olhou para trás e enlouqueceu, com ocasionais acessos de riso, até que a morte foi encontrá-lo certa noite na cabina, enquanto Johansen errava pelo convés a delirar.

Mas Johansen ainda não se rendera. Sabendo que a Coisa alcançaria facilmente o Alert antes que o vapor atingisse a pressão máxima, optou por uma saída desesperada: regulando o motor para velocidade total, correu como um raio ao convés e reverteu o timão. O mar cobriu-se de remoinhos e espuma, e enquanto o vapor subia cada vez mais, o valente norueguês dirigiu a nave contra a abominação gelatinosa que o perseguia erguendo-se das imundas ondas espumantes como o castelo de popa de um galeão demoníaco. A medonha cabeça de polvo com tentáculos retorcendo-se chegava quase à altura do gurupés do resoluto iate, mas Johansen prosseguiu inabalavelmente.

Houve um estouro como o de uma bexiga rebentando, o derrame de uma nojeira lamacenta como a que jorra de um peixe-lua partido, um fedor como de mil sepulturas abrindo-se de chofre e um som que o cronista negou-se a registrar. Por um instante o barco foi emporcalhado por uma nuvem verde, acre e cegante, e logo depois havia apenas um empeçonhado fervilhar à ré, onde – Deus do Céu! – a espalhada plasticidade daquele inominável rebento sideral estava nebulosamente recompondo-se na sua execrável forma original, distanciando-se cada vez mais à medida que o Alert ganhava velocidade de seu vapor ascendente.

Isso foi tudo. Depois disso Johansen limitou-se a contemplar o ídolo na cabina e a providenciar comida para si e para o maníaco risonho do seu lado. Não tentou navegar depois daquela façanha, pois a experiência como que lhe esvaziara a alma. Sobreveio então a tempestade de 2 de abril e uma concentração de nuvens que lhe obscureceram a consciência. Teve uma sensação de turbilhão espectral por líquidos golfos de infinito, de Jornadas estupefacientes através de universos giratórios numa cauda de cometa, e de mergulhos histéricos das profundezas do inferno até a lua e da lua de volta às profundezas do inferno, tudo isso animado por um coro gargalhante dos deuses ancestrais, disformes e hilários, e dos zombeteiros demônios do Tártaro, verdes e com asas de morcego.

Saído desse sonho veio o socorro – o Vigilant, a corte do almirantado, as ruas de Dunedin e a longa viagem de volta ao lar, à velha casa às margens do Egeberg. Não podia falar nada – tê-lo-iam julgado louco. Ele haveria de escrever o que sabia antes que a morte chegasse, mas era necessário que sua esposa de nada desconfiasse. A morte viria como uma bênção se ao menos obliterasse as lembranças.

Esse foi o documento que eu li, e que então coloquei na caixa de metal junto com o baixo-relevo e os papéis do professor Angell. A eles acrescentarei este meu relato – prova da minha sanidade, no qual reuni as peças de algo que, espero, nunca mais ninguém volte a decifrar. Vi tudo o que o universo pode conter de horror, e depois disso até mesmo os céus primaveris e as flores de verão serão veneno para mim. Mas não creio que minha vida será longa. Como meu tio se foi, como o pobre Johansen se foi, também eu irei. Sei demais, e o culto ainda vive.

Cthulhu também vive ainda, acredito, naquele precipício de pedra que o vem abrigando desde a infância do sol. Sua amaldiçoada cidade tornou a afundar, pois o Vigilant percorreu aquela região após a tempestade de abril; mas seus adoradores na terra ainda urram, saltam e matam ao redor de ídolos sobre monólitos em locais ermos e solitários.

Ele deve ter sido surpreendido pelo afundamento quando se achava no seu abismo negro, do contrário o mundo inteiro estaria agora berrando de pavor e frenesi. Quem sabe qual será o final? O que emergiu pode afundar, e o que afundou pode emergir. A repugnância suprema aguarda sonhando nas profundezas e a podridão paira sobre as precárias cidades dos homens. O tempo virá… Mas não devo, nem posso pensar! Só me resta a esperança de que, se eu não sobreviver a este manuscrito, meus testamenteiros tenham mais precaução que audácia e impeçam que outros olhos o vejam.

Para ler as partes anteriores do conto, clique nas imagens abaixo:

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Sem comentários ainda para “O Chamado de Cthulhu – Parte 3”

  1. Evilzin disse:

    Impressionante!

    Com o Bloop, e com tantos relatos sobre algo que seria a comentada R’lyeh, só nos resta esperar.

    Realmente, aterrorisante.

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