Desenterrando Tranqueiras: Berserk – parte 2

No Desenterrando anterior eu falei sobre o tom sombrio com o qual Berserk, obra-prima de Kentaro Miura, se apresenta. A história de Guts é uma narrativa sanguinolenta e pesada em seu arco inicial e, apesar de se manter uma história adulta e gráfica nos volumes posteriores, o foco se torna outro no chamado “Arco da Era de Ouro“.

Ao invés de se focar na violência e vingança, essa parte da história se preocupa em delinear a persona do protagonista, demonstrar seu desenvolvimento desde a infância, os problemas que enfrentou, até mesmo o motivo que torna Guts tão averso ao toque de outra pessoa. Como eu já disse anteriormente, sua infância foi brutal e o obrigou a procurar sustento próprio através do serviço como mercenário desde a adolescência. Durante o assalto a uma fortaleza, Guts acaba se expondo para Griffith, o líder de um bando mercenário que, apesar de ser formado por pessoas bastante jovens, possui já uma grande fama como o Bando do Falcão, os anjos da morte no campo de batalha.

Griffith, após um contato inicial conturbado, acaba forçando, através de um duelo, que Guts se torne seu soldado. O “Arco da Era de Ouro” então se desenrola mostrando como Guts avança na hierarquia dentro de seu grupo, as características dos membros desse bando de guerreiros e a busca de Griffith pela glória servindo o reino de Midland em uma guerra que já dura cem anos contra o reino de Chuder. Gust demonstra várias vezes que não é apenas um homem armado com aço, mas também com a perspicácia necessária para sobreviver nos campos de batalha. No entanto, uma coisa lhe falta: uma motivação. Durante vários pontos da história, Guts é acusado de ser apenas um sobrevivente, sem sonhos pelos quais lutar e isso se torna um ponto crítico da narrativa, algo que alavancará uma mudança drástica futuramente. Os sonhos e o que as pessoas estão dispostas a fazer por eles é um tema crucial não só desse arco, mas de todo o mangá.

As aventuras do Bando do Falcão durante a guerra centenária entre Midland e Chuder fazem com que eles ganhem cada vez mais renome entre as tropas e a corte, títulos de nobreza e também inimigos. Durante a ascensão do grupo mercenário, Griffith e Guts enfrentam não só os inimigos no campo de batalha, mas nos salões dos castelos. Tentativas de assassinato e conspirações palacianas ameaçam o carismático líder do Bando do Falcão, mas este sempre tem uma carta na manga para derrotá-los. Claro, sempre com a ajuda de seu braço direito, Guts.

A interação entre o trio principal do Bando do Falcão – Guts, Griffith e Caska – é diversas vezes conturbada. Caska constantemente acusa Guts de tornar o líder distraído e relaxado, bem como de não se importar com nada além de matar. Ao mesmo tempo, Guts demonstra uma devoção por seus companheiros que ele mesmo estranha e, diversas vezes, se sacrifica por Caska como se sentisse muito mais que companheirismo. Aqui me vem à mente a fenomenal seqüência em que o protagonista a protege de uma emboscada e acaba ganhando a fama de ter derrotado cem homens sozinho em batalha.

E Griffith, completando o trio problemático, faz com que Caska constantemente fique em dúvida se ama ele ou Guts, enquanto os sentimentos do próprio Griffith, inescrutáveis inicialmente, ao fim do arco acabam indicando que a pessoa que ele mais ama é, surpresa, Guts. Como ele mesmo diz para o anti-herói em um momento de clímax na história: “Você foi a única pessoa que fez com que eu me esquecesse dos meus sonhos, Guts.”

O momento que muda todo o rumo da trama é quando o protagonista decide abandonar o grupo de mercenários, seu amigos, para tentar encontrar um sonho para si mesmo. Há mais uma cena especialmente interessante nesse ponto, quando Griffith se coloca no caminho de Guts e diz que só permitirá que ele parta se vencer um duelo. Pela primeira vez, o leitor passa a ver por trás dos olhos do líder mercenário enquanto esse diz para si mesmo que não permitirá que Guts o abandone, que prefere arriscar matá-lo nesse duelo do que deixá-lo ir embora. Tudo vai por água abaixo quando Griffith é derrotado e, em conseqüência disso, entra em choque e faz uma besteira que condena todo o Bando do Falcão.

É aqui que a marreta bate na história, refazendo a analogia do Desenterrando anterior. Não dá pra comentar muito sem estragar a surpresa de quem for ler o mangá, mas o inferno literalmente se abate sobre o Bando do Falcão quando um grupo de seres sobrenaturais que se intitulam “A Mão de Deus” se põe frente a eles. Revelando serem os enviados do deus supremo que serve à vontade da humanidade, eles estão ali para recolher o sacrifício que criará o quinto e último membro de seu grupo demoníaco. E nem preciso dizer que esse sacrifício é recolhido em sangue e sofrimento…

Este é o ponto em que o “Arco do Espadachim Negro” se justifica, demonstrando o quão profundamente o Bando do Falcão e Guts afundam, suas vidas despedaçadas por seres sobrenaturais aparentemente invencíveis. Também é a cena que mostra o porque Guts é um personagem tão maneiro. A força de vontade, o espírito do personagem é algo tão poderoso que nós quase podemos acreditar que o guerreiro brucutu irá derrotar todos aqueles monstros com suas próprias mãos, salvar sua amada Caska dali e punir os responsáveis. No entanto, a morte quase consome Guts, não fosse outra intervenção do sobrenatural. Skull Knight, um ser fantasmagórico, retira os sobreviventes daquele circo dos horrores, dando a eles a chance de se salvarem e buscarem vingança contra a “Mão de Deus”. O próprio Skull Knight parece ter seus próprios motivos para tentar destruir o enclave demoníaco e, em uma conversa com Guts, expõe para ele o plano da Idéia do Mal, o deus nefasto que rege aquele mundo manipulando a Causalidade.

Aqui eu devo encerrar minha análise sobre a história. Já foi um grande esforço não jogar spoilers para todos os lados e, considerando que a saga ainda está se desenrolando com Guts em busca de sua vingança, eu não poderia realmente trazer mais informações verdadeiramente úteis sem estragar algumas surpresas pelo caminho.

Novamente, reforço a recomendação para que busquem o mangá ou pelo menos o anime. E, como um incentivo extra, aí vão alguns vídeos extremamente interessantes para inspirá-los. Apenas cuidado ao assistí-los, eles não são seguros para ambientes de trabalho ou fracos de coração:

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5 Comentários para “Desenterrando Tranqueiras: Berserk – parte 2”

  1. gabriel teixeira disse:

    ei aiken, pelo q percebi o guts é realmente um barbaro pq pelas ilustraçoes parece q ele é todo tristonho, mas o ultimo video mostrou q meus conceitos estavam errados.

    ia ser muiito loko ver um quebra pau entre conan e guts, até quem estivesse assistindo ia apanhar rs.

    • Aiken Frost disse:

      Hehehe, realmente, cara. Guts versus Conan seria sanguinolência fora de escala. A revista ia escorrer sangue e tripas, hahaha.

      O lance do Guts não é que ele é tristonho, é que ele não teve motivo NENHUM na vida inteira pra ser feliz, entende? E quando ele conseguiu algo assim, esse motivo foi brutalmente destruído…

  2. gabriel teixeira disse:

    por acaso, de quem é essa musica do ultimo video?
    é da banda de heavy metal LORDE?

    • Aiken Frost disse:

      Não é não, Gabriel. Essa música se chama “The Wonders at Your Feet”, da banda “Dark Tranquillity”.

  3. Lucas disse:

    ae, postando o link do mangá, http://www.kousen.com.br/?page=manga/berserk
    infelizmente a kousen não é a mesma que foi outrora e por mais que diga que ainda continuam o projeto, eu não vejo isso, mas pelo menos tem até o volume 24 lá, vale muito a pena ler

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